sábado, 19 de outubro de 2013

Vinicius e eu.

Alexandre França

Vinicius bebeu comigo nas noites em que aprendi as manhas da madrugada, nas tardes em que estendi a corda da palavra pelo umbigo de uma mulher. Ele me embriagou nos dias de cimento, juntando restos de afeto na varanda de outros sorrisos. Ele quase não via a sacanagem que se fazia nos quartos em movimento. Ele bebia e cantava, com aquela voz fraquejada, dentro da praia fria de uma declaração amorosa. Vinicius embriagado nada dizia só se ouvia sua música submersa em carência, na época em que ninamos o ego, culpando a nós mesmo, lamentando e sujando a sala das nossas neuroses. Vinicius sorria e bebia alí, a cada porre tomado, a cada medida tomada em função do amor - essa causa perdida - , e falava "beba mais" e me esquecia de onde, pra onde, por que se caminha em direção a alguém. Vinicius continua alí - de vez em quando eu o visito. Não para fazer as mesmas coisas,

Mas para lembrar que é possível falar sobre amor
mesmo a paixão não sendo mais
a moda
entre os casais

da minha idade.

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