quarta-feira, 10 de julho de 2013
Os meus dias
Seu nome era diferente de outros que eu conhecera;
perguntei-lhe. Todas as manhãs, quando eu atravessava a pracinha, lá estava ele
amanhecendo com o dia, as mãos trêmulas, o corpo curvo confundindo-se com a
Terra. Naquela tarde, nós falamos sobre tudo e nos esquecemos de medir o tempo.
Ambos estávamos em compasso de colheitas. Contou-me que também viera de longe,
há muitos anos. Havíamos quase perdido nossa identidade, vivendo aqui neste
lugarejo, cujos poentes são amarelos e brilhantes. Falamos da impressionante solidão
que nos estrangula, dos rostos desconhecidos que nos assombram, de objetos que
não fazem parte de nossa história, dos retratos de família a nos vigiar de
dentro de seus sorrisos estáticos. Lembramo-nos até ao coração de respirar...
respirar... secando as lágrimas. Sabíamos ser assim, sem sobras, sem máscaras.
Decerto que eu poderia escrever um poema sobre os meus dias, sobre fazer o meu
próprio pão, sobre as aulas na universidade, sobre os meus dias ternos e
iguais. Decerto que ele poderia revelar-me os segredos destas rosas tão
intimamente cultivadas. Decerto que poderíamos tomar aquele café, ou o chá que
eu nunca soube se ele gosta. Nunca nos sentaremos em um banco de jardim como
este, perfumado a lembranças e simplicidades, a conversas estranhas e
necessárias, nem eu nem ele. Há tanto compromisso e tão pouca música! E não
creio que sejam suficientes os meus dias para esquecer-me daquele homem de tão
poucas palavras, de gestos tão serenos, de tão pouca juventude e tão longa
vida.
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