terça-feira, 4 de agosto de 2009

Discurso Microsósmico

De repente
vem-me um cansaço das coisas.
É tarde. E, cansado,
para fugir do excesso das coisas,
invento um espelho invisível
e em sua face de frio e de aço
fico a olhar-me dentro dos olhos.
E vejo que as coisas,
as excessivas coisas,
estão lá dentro.
(Aqui dentro.)
Metodicamente
passo a tirá-las desses olhos que me fitam.
E vou jogando fora:
dezenas de amores não correspondidos
ou, pelo menos, não realizados;
uma, duas, três frustrações
de vitórias que poderiam ter sido,
de batalhas que não travei;
um punhado de ausências;
alguns gestos vergonhosos
-- e outros tantos, nobilíssimos,
que omiti;
umas saudades imprestáveis;
uma inteligência gasta,
que ameaça encetar a busca de originalidades inúteis;
uma sensibilidade surrada,
que se apega aos fofos divãs do já-visto;
uma ou duas virtudes suspeitas,
que, solitárias, pedem para ir embora.
E vou pegando tudo
e atirando pela janela,
numa loucura defenestrativa,
até chegar ao vazio
de que não posso me livrar.
Então,
olhando-me dentro dos olhos,
fito enamoradamente esse nada,
onde modulo o meu caos,
meu futuro universo.

Anderson Braga Horta

Nenhum comentário: