Destaque, das profundezas do subconsciente.
E então chega o dia. Então chega a hora. Então chega o
instante em que é preciso coragem. Para que não venham os pretensos biógrafos
retirar as páginas (agora virtuais) pra pintar teu retrato como se fosse um
quadro de Goya. Para que não coloquem seu coração em lugar da flor de Magritte
suspenso onde todo mundo vê. Para que não digam que você é um cachimbo, um
artefato, uma droga, um súcubo. Para que os que você amou, ou não amou, emitam
diagnósticos sobre sua vida de mulher. Para aqueles que você nunca mostrou seu
rosto verdadeiro, sua ferida. Para quem nunca sentou-se à sua mesa, fez amor
contigo. Para aqueles que nunca foram teus amigos. Para todos estes não te
usurparem considerando-se conhecedores de tua alma, por se sentarem em um bar,
falar de livros, lançar um livro e pensar que isto mostra teu íntimo. Para quem
destrói ilhas de flores, paraísos que você demorou décadas pra construir como
quem monta um quebra-cabeças nas madrugadas... Por estas e outras, e por que
ninguém pode saber o que vai no meu coração, qualquer dia destes pego uma
mochila e um violão... os livros que amo, e somo tudo isto à minha solidão e
vou sim, para um lugar, para uma montanha, quiçá vou ficar ao lado do mar, e
vou _ finalmente _ contar a minha história...
**saturada deste assunto _ biografia, pensando em Bandini e
Sal Paradise, pensando em como só vale quando alguém consegue ele mesmo narrar
sua vida transformando com tanta beleza sua vida, que seu personagem acaba mais
citado que seu próprio nome, e este é o momento em que a Literatura se agiganta.
Raros momentos... e fazem falta!...**
Bárbara Lia
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