quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Afecções do Ausente



Poeira negra e veneno no ar.
O mundo continua após tudo,
mesmo que nada.

Pilhas de corpos,
seres sem metafísica,
para o passeio, entre sangue e vísceras,
do oculto na neblina da história.

O ausente ainda olha um mundo infectado.

E dele não ri.
É o sorriso apagado no muro das cidades;
o que foi
e que se perde a cada feto que brota.

Retirado à força,
embalou o espírito na necrose do outro.

Mas o outro não importa;
somente o que se foi.

Chega de vermes e de vísceras.
O sangue que escorre da gengiva
chora o que foi arrancado da inércia.

O ausente apenas sabe,
não chora o sangue ingerido,
que rega de espinhos o ventre do outro.
Apenas sabe.

Sangrado feito lixo,
ainda olha a sua ausência.

Ele sabe.
Em um mundo infectado, resta apenas sua marca.


Homero Gomes, em "Solidão de Caronte". Ed. Patuá.

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