há esta menina que me espera impaciente. o corpo de
terremoto adiado. como uma revoada de vespas, sorri - talvez o sorriso que
monalisa não pôde. será uma fúria? diz coisas na língua das flores, quase se
faz entender, prestes a traduzí-la, e súbito, põe-se a falar na língua franca
dos peixes de águas fundas. Espero a fio, o dia em que me deixará, sem esboçar
sequer o arco-íris. Nas tardes de verão me arrasta pelo braço, ao redor de
galerias, como uma enchente ou um carnaval de rua; e á noite, sob meu corpo,
mais molhada que de manhã cedinho, secreta um orvalho ácido que inaugura por
dentro os dias.
de repente a menina de antes que eu nunca vira: respiração
monótona, incapaz de comoções e ventos, sua presença de passarinho morto, o
vulcão já extinto, as mãos abertas, a língua que é a minha, os olhos que
perderam aquele brilho da bomba, a especiosa nudez, ora desenganada, sem
trás-dos-montes, sem morte na esquina, sem horizontes de abandono, sem caminhos
de sustos, sem esfinge na encruzilhada das pernas.
crisálida de trás pra frente, observo-a pela primeira -
última - vez... vesti-me e ganho a rua sem fazer barulho ou lágrimas. a aurora
será sempre um acontecimento.
Rodrigo Madeira
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