segunda-feira, 11 de maio de 2015

Com tantas mensagens fofas e tocantes sobre as mães, peço licença aqui para destoar um pouco. Sim, ser mãe é uma maravilha, uma bênção, um privilégio etc., etc. Nada a obstar. Desde que este discurso não culpabilize as mulheres que não quiseram ou não puderam ser mães. Não raro, por trás deste discurso da idealização materna, esconde-se a velha opressão da uma sociedade patriarcal e falocêntrica. Ser mãe frequentemente é ser vítima. Muitas não optaram livremente pela maternidade. Além do ônus de ser mulher numa sociedade machista, vem o ônus de ser mãe numa sociedade patriarcal. Como me disse certa vez uma mulher calejada pela vida: primeiro você tem que obedecer o seu pai; depois, quando casa, seu marido; aí, quando você fica viúva e pensa que vai ser livre, os seus filhos passam a mandar em você... Sim, ser mãe é foda. A vida te fode e depois você se fode pra criar os filhos (pois, afinal de contas, os homens tem coisas mais importantes a fazer). Aí, no dia das mães você recebe flores -- como se flores pudessem compensar uma vida inteira de opressão. Se ser mãe é padecer no paraíso, as mães estão dispensando esse paraíso. Preferem homens (ou mulheres) que sejam mais companheiros que maridos e pais, e filhos e filhas que sejam mais solidários que reprodutores dos preconceitos paternos. Por uma sociedade sem classes e hierarquias! Ou como dizia Oswald de Andrade: "Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama."


Otto Leopoldo  Winck

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