Com tantas mensagens fofas e tocantes sobre as mães, peço
licença aqui para destoar um pouco. Sim, ser mãe é uma maravilha, uma bênção,
um privilégio etc., etc. Nada a obstar. Desde que este discurso não culpabilize
as mulheres que não quiseram ou não puderam ser mães. Não raro, por trás deste
discurso da idealização materna, esconde-se a velha opressão da uma sociedade
patriarcal e falocêntrica. Ser mãe frequentemente é ser vítima. Muitas não
optaram livremente pela maternidade. Além do ônus de ser mulher numa sociedade
machista, vem o ônus de ser mãe numa sociedade patriarcal. Como me disse certa
vez uma mulher calejada pela vida: primeiro você tem que obedecer o seu pai;
depois, quando casa, seu marido; aí, quando você fica viúva e pensa que vai ser
livre, os seus filhos passam a mandar em você... Sim, ser mãe é foda. A vida te
fode e depois você se fode pra criar os filhos (pois, afinal de contas, os
homens tem coisas mais importantes a fazer). Aí, no dia das mães você recebe
flores -- como se flores pudessem compensar uma vida inteira de opressão. Se
ser mãe é padecer no paraíso, as mães estão dispensando esse paraíso. Preferem
homens (ou mulheres) que sejam mais companheiros que maridos e pais, e filhos e
filhas que sejam mais solidários que reprodutores dos preconceitos paternos.
Por uma sociedade sem classes e hierarquias! Ou como dizia Oswald de Andrade:
"Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a
realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do
matriarcado de Pindorama."
Otto Leopoldo Winck
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