segunda-feira, 4 de maio de 2015

O enterro do lobo branco

"Os homens e as mulheres começaram a suspender e balançar as mãos em uma espécie de orquestração mas orquestravam o quê¿ Olhei novamente para os lábios do pai de Esther e percebi que ele abria e fechava a boca cheguei mais perto e só então percebi que ele cantava uma espécie de sonata entre graves e agudos fiquei sem saber como interferir não sabia se fazia um dueto ou gritava com aquele homem hediondo que roubara a minha face e agora a expunha sem a mínima vergonha para todos os outros seres daquele povoado imundo não Esther não quero te ofender não é sobre você ou sobre seu riso que falo é sobre seu pai no entanto você sabe que prefiro rasgos a risos por isso gostava quando se movia calada pelos cantos obscuros da sala de repente todos abaixaram os braços e a cantoria cessou havia um espelho do lado oposto ao cadáver de forma que havia duas Estelas mortas uma me olhava atônita a outra me ignorava aos poucos aquela partitura se desfez e eu senti a musculatura do meu rosto desenrijecer"

Márcia Barbieri

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