domingo, 13 de outubro de 2013

A FLOR DE VIDRO



E haverá um dia conhecido do
Senhor que não será dia
nem noite,e na tarde
desse dia aparecerá a
luz.”
– Zacarias, XIV, 7.

Da flor de vidro restava somente uma reminiscência amarga. Mas havia a saudade de Marialice, cujos movimentos se insinuavam pelos campos — às vezes verdes, também cinzentos. O sorriso dela brincava na face tosca das mulheres dos colonos, escorria pelo verniz dos móveis, desprendia-se das paredes alvas do casarão. Acompanhava o trem de ferro que ele via passar, todas as tardes, da sede da fazenda. A máquina soltava fagulhas e o apito gritava: Marialice, Marialice, Marialice. A última nota era angustiante.

— Marialice!
Foi a velha empregada que gritou e Eronides ficou sem saber se o nome brotara da garganta da Rosária ou do seu pensamento.
— Sim, ela vai chegar. Ela vai chegar!
Uma realidade inesperada sacudiu-lhe o corpo com violência. Afobado, colocou uma venda negra na vista inutilizada e passou a navalha no resto do cabelo que lhe rodeava a cabeça.

Murilo Rubião _ O Pirotécnico Zacarias / Ática


**Da série _ Livros da minha estante _ Página aleatória./

Fonte : Bárbara Lia

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