por Larissa Acosta
Aquele som invadia minha sala. Tomava o lugar de uma
monotonia habitual, que costumava preencher os espaços entre mesas, cadeiras,
computadores e cabeças.
Aquelas vozes batiam com fervor às janelas fechadas das
margens verticais da Avenida Presidente Vargas. Elas clamavam pelo silêncio
conformado de todos nós.
Porém, já eram 18h. Arrumei minhas coisas e levantei.
De saída, vi que as pessoas compartilhavam sua preocupação
sobre como voltariam para casa. Ninguém parecia escutar o que diziam as vozes
da rua. O canto que vibrava o ar frio daquele início de noite era ali só mais
um barulho da cidade.
Eu estava no hall, encarando aquelas portas de madeira,
esperando que uma se abrisse e me levasse direto ao fim do expediente de mais
um dia de trabalho. Mas aqueles gritos haviam me seguido. Atravessaram portas e
paredes e também minha pele e ossos. Ecoavam dentro de mim. Aflita, entrei no
elevador.
A rua estava repleta de pensamentos e palavras. Enquanto
caminhava contra aquela corrente de gente, quis me deixar levar a maior parte
do tempo. Olhar para aqueles olhos sedentos de solidariedade era como encarar
um espelho: eu tampouco entendia porque não me juntava àquela massa cidadã.
Decepcionada, segui meu rumo. Sabia que mais tarde aquelas pessoas
teriam que encarar a PM e suas armas, que ferem o corpo e a dignidade de quem
luta pelo coletivo (e isso inclui os próprios policiais). Mas continuei dando,
um a um, meus passos egoístas em direção à Estação Uruguaiana.
Entrei no metrô. O som ali não tinha a solidez das ruas:
eram fragmentos individuais, dispersos, pessoais. Eram muitas pessoas, mas
apenas pessoas. Sem força, sem união, ligadas apenas pelo desejo de chegar logo
a suas casas. E ali estava eu.
Sentei triste e acanhada no trem. Empunhei minha educação e
escrevi, li e me informei. Lembrei-me de cada palavra de progresso, cada lição
que já levei das salas de aula por onde passei, de todo o esforço e nobreza
daqueles que dedicam a vida a construir uma sociedade melhor.
Meu grito não havia se juntado ao dos professores naquela
noite. Mas ali, no meio daquelas dezenas de pessoas que acompanhavam o balanço
do vagão, eu me importava. Eu pensava e refletia.
E novamente, aquelas vozes invadiram o espaço. Dessa vez,
porém, emanavam silenciosamente de dentro de mim.
Com a culpa dos omissos pesando sobre meus ombros, me
escorei na janela escura do trem. Sentada, adormeci.
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