volto da velha barbearia do seu Paulo. fazia anos que não
vinha aqui. uma vez por mês o pai nos trazia, aos sábados. saíamos com ele pela
manhã para ver amigos, ir ao mecânico, buscar alguma encomenda. mais ou menos
onze horas, dirigia-nos à barbearia e
pode cortar bem baixinho.
seu Paulo tira o guarda-pó de cima de mim. estou levantando.
com duas notas de dez, pago o corte, máquina em cima e barba feita. me despeço
tenha um bom dia, seu Paulo.
na névoa da manhã, sigo pela nova calçada de granito. a
floricultura está aberta. em frente, o prédio da Divisão Estadual de
Narcóticos. sinto uma dor sutil, o eterno desconforto, no joelho direito.
avanço na direção da pracinha cortada ao meio para facilitar a passagem dos
carros. às minhas costas a fileira de casas noturnas temáticas, parques de
diversões cheios de luzes que funcionam de segunda à segunda, com marcas de
bebida estampadas nas fachadas, Valet Park e seguranças vestindo ternos pretos
na frente, agora fechadas. há alguns anos trabalhei na região, na cozinha da
churrascaria Fogo de Chão. fiz muitas vezes, à pé, de madrugada, o caminho de
volta para o centro. desço a Batel. é sábado e a avenida parece ainda mais
limpa do que de costume. não há sacos de lixo na calçada, cachorros nem
mendigos. passo pelo Pátio Batel. estou descalço, o chão e o ar são úmidos.
esta é uma rua do mundo em que não se respira bem. não, não estou descalço, os
tênis é que encharcados. meu corpo não é doente, minhas roupas são boas. uma
enxaqueca me entra feito uma agulha de tricô. acelero o passo. logo estou nas
imediações do Castelinho. o cheiro ruim voltou, uma ponta de enjôo e a paranóia
de estar sendo seguido de novo pelo Gigante. tenho as pernas dormentes, mas
acelero o passo. não olho para trás. o joelho cada vez pior. chego aos fundos
do Shopping Crystal. a noite cresce, é já muito tarde. o sujeito do cachorro
quente da Comendador Araújo não está mais na rua. a cidade vazia, exceção é
este enorme homem morto, estirado na calçada. sensação de que já o vi antes.
vivos, jamais nos misturaremos ao vento. a noite gelada não para para ele estar
morto. não posso ajudá-lo. logo virá o fedor. há uma montanha de sacos de lixo
do shopping. aqui sim o ar é insuportável. tampo o nariz. ratos, entre eles uma
gordona, ratazana enorme, cinza, pêlo grosso. estamos desde sempre misturados
ao tresvario dos ratos. pode que haja ratos do tamanho de homens? é tão tarde
já, a madrugada me arrasta. caminhei tanto e sinto como nunca tivesse mudado de
lugar. a cabeça pesa, maciça. ratos, eu estou aqui, vocês não valem por minha
memória. súbito, as calçadas começam a ser povoada novamente, pneus e buzinas,
sinais sendo furados, ao contrário de mim que me vejo cada vez mais fadigado,
como que levado por uma lassidão dolorosa. estou na frente do meu prédio,
finalmente. não sei se conseguirei chegar até a porta do apartamento
lençol, cobertor, penso.
o comércio está sendo aberto. não tenho mais forças. faleço
agora. ou julgo ter adormecido mas continuo acordado, ou não chego em casa e
entro no banheiro e ligo o chuveiro e tiro casaco, camisa, calça, cueca e tomo
um banho demorado. respiro fundo, me enxugo. a cabeça dói. a água vai pelo ralo
em direção aos esgotos sob a Praça Osório. venho para o quarto. um gosto de
madeira áspera na boca. visto o pijama. não deixei de roer as unhas. vou até a
cozinha. a geladeira muge. abro, pego queijo e presunto. preparo um sanduíche.
a luz no apartamento é uma brasa acesa, quase nada ilumina. estou tranquilo.
vou até a janela e então aquele sensação de estar oprimido... pelo quê? olho
meu reflexo, tenho uma aparência destruída. me encaro com uma seriedade
enervante
ficou bom este corte de cabelo.
estou nu. e é já manhã, digo, madrugada.
Luiz Felipe Leprevost
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