domingo, 3 de novembro de 2013

volto da velha barbearia do seu Paulo. fazia anos que não vinha aqui. uma vez por mês o pai nos trazia, aos sábados. saíamos com ele pela manhã para ver amigos, ir ao mecânico, buscar alguma encomenda. mais ou menos onze horas, dirigia-nos à barbearia e
pode cortar bem baixinho.
seu Paulo tira o guarda-pó de cima de mim. estou levantando. com duas notas de dez, pago o corte, máquina em cima e barba feita. me despeço
tenha um bom dia, seu Paulo.
na névoa da manhã, sigo pela nova calçada de granito. a floricultura está aberta. em frente, o prédio da Divisão Estadual de Narcóticos. sinto uma dor sutil, o eterno desconforto, no joelho direito. avanço na direção da pracinha cortada ao meio para facilitar a passagem dos carros. às minhas costas a fileira de casas noturnas temáticas, parques de diversões cheios de luzes que funcionam de segunda à segunda, com marcas de bebida estampadas nas fachadas, Valet Park e seguranças vestindo ternos pretos na frente, agora fechadas. há alguns anos trabalhei na região, na cozinha da churrascaria Fogo de Chão. fiz muitas vezes, à pé, de madrugada, o caminho de volta para o centro. desço a Batel. é sábado e a avenida parece ainda mais limpa do que de costume. não há sacos de lixo na calçada, cachorros nem mendigos. passo pelo Pátio Batel. estou descalço, o chão e o ar são úmidos. esta é uma rua do mundo em que não se respira bem. não, não estou descalço, os tênis é que encharcados. meu corpo não é doente, minhas roupas são boas. uma enxaqueca me entra feito uma agulha de tricô. acelero o passo. logo estou nas imediações do Castelinho. o cheiro ruim voltou, uma ponta de enjôo e a paranóia de estar sendo seguido de novo pelo Gigante. tenho as pernas dormentes, mas acelero o passo. não olho para trás. o joelho cada vez pior. chego aos fundos do Shopping Crystal. a noite cresce, é já muito tarde. o sujeito do cachorro quente da Comendador Araújo não está mais na rua. a cidade vazia, exceção é este enorme homem morto, estirado na calçada. sensação de que já o vi antes. vivos, jamais nos misturaremos ao vento. a noite gelada não para para ele estar morto. não posso ajudá-lo. logo virá o fedor. há uma montanha de sacos de lixo do shopping. aqui sim o ar é insuportável. tampo o nariz. ratos, entre eles uma gordona, ratazana enorme, cinza, pêlo grosso. estamos desde sempre misturados ao tresvario dos ratos. pode que haja ratos do tamanho de homens? é tão tarde já, a madrugada me arrasta. caminhei tanto e sinto como nunca tivesse mudado de lugar. a cabeça pesa, maciça. ratos, eu estou aqui, vocês não valem por minha memória. súbito, as calçadas começam a ser povoada novamente, pneus e buzinas, sinais sendo furados, ao contrário de mim que me vejo cada vez mais fadigado, como que levado por uma lassidão dolorosa. estou na frente do meu prédio, finalmente. não sei se conseguirei chegar até a porta do apartamento
lençol, cobertor, penso.
o comércio está sendo aberto. não tenho mais forças. faleço agora. ou julgo ter adormecido mas continuo acordado, ou não chego em casa e entro no banheiro e ligo o chuveiro e tiro casaco, camisa, calça, cueca e tomo um banho demorado. respiro fundo, me enxugo. a cabeça dói. a água vai pelo ralo em direção aos esgotos sob a Praça Osório. venho para o quarto. um gosto de madeira áspera na boca. visto o pijama. não deixei de roer as unhas. vou até a cozinha. a geladeira muge. abro, pego queijo e presunto. preparo um sanduíche. a luz no apartamento é uma brasa acesa, quase nada ilumina. estou tranquilo. vou até a janela e então aquele sensação de estar oprimido... pelo quê? olho meu reflexo, tenho uma aparência destruída. me encaro com uma seriedade enervante
ficou bom este corte de cabelo.
estou nu. e é já manhã, digo, madrugada.


Luiz Felipe Leprevost

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