segunda-feira, 11 de maio de 2015

Foi quando eu levantei os olhos e os mergulhei no lago negro dos seus que eu compreendi que uma vida só é pouca para tanto mistério. Daí me ajoelhei e rezei todas as orações que me ensinaram em criança. Mas era tarde. Não é que Deus tinha morrido. Ele apenas fora no armazém comprar cigarros e nunca mais voltou. A vida é às vezes uma coisa tão estúpida que dá preguiça de viver. Outras vezes ela é gloriosa. São poucos esses instantes mas eles iluminam o restante da vida. Sim, a vida é uma longa e despovoada noite com alguns poucos pontos luminosos. Naquele tarde você foi sim um ponto luminoso. Estou cego até hoje. E se um dia eu não mais existir ainda vai restar no nada que eu serei um pouco do tudo que nós fomos. Sim, ainda sou místico: acredito no mistério. No mistério dos seus olhos e no mistério dos meus versos. Acho que vou me ajoelhar de volta e erguer os braços, imaginando-me num mosteiro russo. Ou num barco em meio à mais terrível intempérie. Com a certeza de que, com a lembrança de seus olhos, eu nunca vou naufragar. [olw]

Um comentário:

Michele Pupo disse...

Bravo! Gostei.

Há um filme argentino chamado "Querida, voy a comprar cigarrillos y vuelvo". Conta a história de um agente imobiliário que tem a possibilidade de, através de um acordo com uma pessoa com poderes sobrenaturais, viajar para o seu próprio passado e viver novamente sua juventude. Eu gosto bastante. Já assistiu?

Abraço