Ao entrar no ônibus, meus olhos procuraram as belas meninas que
antes paquerava, e por quem era paquerado. Como nos enternece, nos provoca os
olhos curiosos de quem está descobrindo a sensualidade da vida.
Às vezes, impulsionados pelo balanço do ônibus, os encontros
de corpos ocorriam no acaso, porém muito desejados! Um descuido, e mãos se
tocavam, esbarrávamos e o perfume ficava...
A alma vibrava por um simples flerte, e o corpo respondia.
Sentia meu corpo suar, só de imaginá-las ali dentro do
ônibus, respondendo meu olhar puramente malicioso.
Meus olhos atentos encontraram algumas delas sentadas nos
bancos para idosos. Agora, graciosas senhoras, por quem meu coração ainda
ansiava.
Uma delas, ao me ver, sorriu. Talvez também trouxesse essas
lembranças... Seu olhar terno e malicioso, continuava com sorriso de menina.
Sentei-me ao seu lado, minhas mãos enrugadas, mas ainda descuidadas procuraram
as mãos daquela senhora, e as dela procuraram as minhas. Seu olhar não mais
procurava a sensualidade da vida, e sim a revelava. Ao nos tocarmos, senti
arrepios conhecidos.
Com minha mão segurando a dela, agora de propósito, segui
naquela viagem, olhando pela janela, buscando respostas nas lembranças,
percebendo no mesmo trajeto de antes, diferentes paisagens.
JDamasio / A compota de Pimenta e outros Contos
"puramente" Picantes 2009
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