"O romance Solidão calcinada evidencia uma geração de
mulheres em que os preceitos sociais, altamente punitivos, o medo do
desconhecido e a insegurança conseguiram mantê-las submissas em um primeiro
instante, mas o próprio reconhecimento de sua condição revelou-se como o
primeiro passo rumo ao encontro de sua identidade, ou seja, de sua
transgressão. Personagens femininas que tanto reproduzem o sistema patriarcal,
revelando-se como inferior, submissa, como também manifestam o desejo de romper
com a pressão do paradigma falocêntrico. Na narrativa podemos perceber mulheres
que passam de intimidadas para desafiadoras, que anseiam tornarem-se sujeito
ativo na história e não permanecer à margem, emudecidas no meio social, como é
o caso da protagonista, Bárbara e de sua mãe Serena."
- CONSTRUÇÃO DE PERSONAGENS FEMININAS EM SOLIDÃO CALCINADA,
DE BÁRBARA LIA - Adriana Lopes de Araujo (Mestranda – UEM/PR)
**Solidão Calcinada _ SEEC _ PR / Imprensa Oficial do Paraná
_ Romance Finalista do Prêmio SESC 2005. Na Estante Virtual é possível
encontrar três exemplares ainda. Lá diz que o livro é _ Poesia _ estigma de
poeta, é romance. Embora traga alguns poemas do personagem Pablo Arrabal.
Fragmento...
"Quando Brisa terminou a história eu não era mais um
homem. Eu era um passado. Eu era um zumbi zanzando por todos os lugares onde
vivi e fui feliz ou infeliz. Quando Brisa concluiu e eu percebi, que por
covardia, deixei só minha mulher e minha filha, que eu nem sabia que existia eu
me senti um verme solitário em uma floresta de musgos. Eu percebi que para
salvar minha vida eu havia perdido a chance de felicidade.
Estava congelado ali naquela mesa. Um rio de lágrimas no meu
rosto. Um cigarro apagado entre meus dedos. Nossos cafés esfriando nas xícaras.
Nossa saudade atormentada. A voz de Serena soando em lembrança de canções que
ela amava.
Vácuo gelado e vento rasgando as cortinas. Nariz chora em
gosma branca a verdade que eu não previa. Eu a previa senhora cheia de filhos.
Com aquela calma que ela tinha. Acordando as crianças para o café, lendo o
jornal com aquele jeito distraído, pés em cima do sofá. Os cabelos sempre
caindo nos ombros e uma pausa entre uma notícia e outra para comentar. Uma
mulher que queria o mundo e suas esferas prateadas luzindo. Uma mulher que
acreditava em caminhos que nunca percorreríamos. Eu a via nas manhãs geladas
européias: acenando ao táxi, subindo escadas, carregando rosas para adornar seu
vaso que ela nunca deixava sem uma flor. E ela era a flor que nunca murchava,
nunca."
Página: 81 _ Solidão Calcinada _ Bárbara Lia
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