terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O sofrimento dos sessentões

Cristovão Tezza



Dia desses, divagando, cheguei à conclusão de que minha geração é a mais sofredora que existe. Não é uma questão genérica, do tipo “pessoas de tal idade” são assim ou assado. É geração histórica mesmo, aquele povo que nasceu especificamente no fim dos anos 40 e no começo dos anos 50. Esses, acreditem, estão sofrendo mais que os sessentões de outros tempos.

Explico. Começa porque foi uma geração que teve uma infância dura e sofrida. O Brasil estava saindo do mato e entrando nas cidades, tudo era difícil, os pais eram autoritários e intolerantes, a Igreja assustava bem mais que hoje, o sexo era o portal do inferno e o professor tratava o aluno a pão, água e reguada. Todo mundo mandava nas crianças sessentonas, e mandava no grito. Escreveu, não leu, o pau comeu.
Reprimidos e revoltados, os sessentões adolescentes fizeram a revolução sexual, de que não entendiam nada, e quem aproveitou mesmo a festa foram seus filhos. Quando se tornaram pais, os sessentões não tiveram o gosto de mandar; educaram os filhos nos sonhos igualitários de um mundo utópico e sem conflitos. Como resultado, os filhos passaram a mandar nos pais, exatamente como estes eram mandados antes.

Até aí, tudo bem; os sessentões já estavam adestrados para a obediência. Mas a vida não é só família. No mundo tecnológico, por exemplo, também os sessentões sofrem mais do que os outros. Quando chegou a internet, os sessentões já eram quarentões cansados e não aprenderam nada, a cabeça com saudade da velha roça, em que tudo era tranquilo e na tramela, enquanto a gurizada passava o dia jogando video­game e entrava de cabeça no admirável mundo novo que engoliu o velho. E engoliu os velhos. Os sessentões, que nunca viram um autorama quando crianças, hoje não sabem que graça tem o Facebook ou o iPad e acham uma chatice as senhas do banco, que vivem esquecendo.

E tem mais, talvez o pior: os sessentões sofrem muito no terreno ideológico, em todos os espectros. A direita, por exemplo. Os sessentões de direita de hoje lembram-se com lágrimas nos olhos da ditadura militar. Aquilo, sim, punha ordem no galinheiro! E mais: mulher era mulher, homem era homem, e o resto não se pronunciava. Igreja era coisa de respeito. Hoje é essa esculhambação! E, também com lágrimas nos olhos, o sessentão de esquerda tinha a convicção inabalável de que ser de esquerda era uma bênção, uma bússola moral; o Estado nos defenderia, o petróleo era nosso e como era feliz meu Banco do Brasil! Quando um esquerdista era preso, fazia-se um silêncio respeitoso – esquerdista preso era herói. Assaltava-se o cofre do Ademar para fazer a revolução. Hoje assalta-se a bolsa da Viúva para garantir privilégios. Com a vista cansada – “você é quem, mesmo?” –, uns se misturam aos outros.

Sessentão sofre. Mas que seja com bom humor: aos meus 17 leitores, os votos de boas-festas deste cronista sessentão.

Gazeta do Povo Publicado em 24/12/2013



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