domingo, 5 de janeiro de 2014

Balido do branco

Nem leve, nem agradável. Trecho do meu livro inédito, Balido do branco.

29ª, 31ª e 32ª semanas

A Mulher raquítica sente os chutes fraquíssimos e muito vezenquando vindos de dentro de sua barriga. O Marido franzino põe a mão na barriga da Mulher raquítica para sentir o chute do fedelho. "Esse vai pra seleção..." O bebê está em constante inquietação, mudando, indisposto, de posição e se fosse normal estaria dando cambalhotas. O útero seria seu picadeiro. Mas ele só dá chutes. Chutes fracos sem as pontas dos pés. O cordão umbilical é seu brinquedo favorito, com o qual já poderia ter se enforcado se soubesse que não tem futuro. "Seleção que nada, vai ser é outro coitado, feito nós, dois palhaços abandonados pelo circo da vida!"
O Marido franzino segue rumo à roça de mandioca. A Mulher raquítica segue rumo à roça de mandioca. O Marido franzino colhe mandioca. A Mulher raquítica colhe mandioca. O Marido franzino ri e repete que o filho chuta forte e vai ser jogador. A Mulher raquítica não ri. Pensa que o Marido franzino é um idiota. A Mulher raquítica vai lavar e descascar mandioca. Esquentar a água no tacho pra pôr a mandioca. De novo a mandioca. Então a Mulher raquítica se lembra do porco e da rapadura. "Se fosse jogador, de verdade, nunca que ia faltar porco e rapadura!"

O peso fetal se estivesse mesmo aumentando como seria o correto nesta fase, e aumentado em proporção maior do que o comprimento, nos deixaria saber agora um bebê mais gordinho. Nos deixaria. A pele ainda estaria avermelhada se não estivesse amarelada e esverdeada como o uniforme da seleção de futebol para a qual ele nunca irá. Sua aparência rugosa começaria a desaparecer se ele não tivesse como definitiva e inapelável a aparência de um grão de feijão murcho e pequeno. E se ele tivesse os aproximadamente 31 cm de tamanho e 1.800 gramas de peso que era para ter nesta fase ele teria todas as condições de ser um artilheiro matador ou mesmo um zagueiro alto, célere e celerado, e jogar na seleção. Mas acontece que ele não tem os cerca de 31 cm, muito menos os 1.800 gramas de peso. No máximo será gandula e ficará sempre às margens do campo esperando que os jogadores bem alimentados chutem a bola para fora e ele corra atrás como se corre atrás de um prato de comida, de um copo d’água, de uns trocados que não dão para nada, nada além de sopa rala de mandioca.

O Marido franzino ao tirar a mandioca esturricada da terra igualmente esturricada a joga para o alto, mata no peito e chuta com um mínimo de talento o tubérculo para dentro do cesto aos pés da sua Mulher raquítica. Ele grita, Seleção, vai pra seleção! E você pro raio que o parta, lhe diz a mulher. Segurando a barriga, porém, ela não deixa de pensar que aquilo não passa de uma pequena bola: mais uma bola murcha a ser chutada pelo mundo no país do futebol.

37ª, 38ª, 39ª e 40ª semanas

Era para o bebê estar pronto para vir à luz. Mas sua pele não tem aspecto liso nem é cor-de-rosa como deveria ser. Os cabelos seriam sedosos, seriam. As unhas, se tivesse pés e mãos, estariam crescidas, certamente supercrescidas feito as de um rato. O aparelho sexual estaria totalmente desenvolvido, não fosse a ausência de testículos. O bebê assumiria a posição para o nascimento se realmente tivesse forças para nascer. A Mãe raquítica estaria relaxada esperando só o momento mágico do nascimento. Estaria.

Parto

Doutor Franz tira seus bisturis e improvisa o parto. O Marido franzino está rezando e agradecendo a passagem do doutor e de seu ajudante por ali, pois se dependesse dele a Mulher raquítica já estaria morta de tanto gritar de dor e por causa da hemorragia que lava suas pernas.
Um rasgo no ventre, e a criatura vem à luz. A mulher para de gritar. Fraca que está. Doutor Franz olha para a Mulher raquítica, quase inconsciente, depois para o Marido franzino que ameaça sorrir para o doutor e pensa em gritar, Golaço! Mas desiste quando vê o pequeno corpo enrugado e amarelecidesverdeado que não se mexe, nem solta um choro intenso. Doutor Franz não se contém ao olhar para o imóvel rosto do bebê que lembra mais uma tenebrosa máscara do carnaval de Veneza do que um anjinho. Uma tenebrosa máscara de Veneza aportando sem vida no País do Carnaval.


Paulo Sandrini

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