Nem leve, nem agradável. Trecho do meu livro inédito, Balido
do branco.
29ª, 31ª e 32ª semanas
A Mulher raquítica sente os chutes fraquíssimos e muito
vezenquando vindos de dentro de sua barriga. O Marido franzino põe a mão na
barriga da Mulher raquítica para sentir o chute do fedelho. "Esse vai pra
seleção..." O bebê está em constante inquietação, mudando, indisposto, de
posição e se fosse normal estaria dando cambalhotas. O útero seria seu
picadeiro. Mas ele só dá chutes. Chutes fracos sem as pontas dos pés. O cordão
umbilical é seu brinquedo favorito, com o qual já poderia ter se enforcado se
soubesse que não tem futuro. "Seleção que nada, vai ser é outro coitado,
feito nós, dois palhaços abandonados pelo circo da vida!"
O Marido franzino segue rumo à roça de mandioca. A Mulher
raquítica segue rumo à roça de mandioca. O Marido franzino colhe mandioca. A
Mulher raquítica colhe mandioca. O Marido franzino ri e repete que o filho
chuta forte e vai ser jogador. A Mulher raquítica não ri. Pensa que o Marido
franzino é um idiota. A Mulher raquítica vai lavar e descascar mandioca.
Esquentar a água no tacho pra pôr a mandioca. De novo a mandioca. Então a
Mulher raquítica se lembra do porco e da rapadura. "Se fosse jogador, de
verdade, nunca que ia faltar porco e rapadura!"
O peso fetal se estivesse mesmo aumentando como seria o
correto nesta fase, e aumentado em proporção maior do que o comprimento, nos
deixaria saber agora um bebê mais gordinho. Nos deixaria. A pele ainda estaria
avermelhada se não estivesse amarelada e esverdeada como o uniforme da seleção
de futebol para a qual ele nunca irá. Sua aparência rugosa começaria a
desaparecer se ele não tivesse como definitiva e inapelável a aparência de um
grão de feijão murcho e pequeno. E se ele tivesse os aproximadamente 31 cm de
tamanho e 1.800 gramas de peso que era para ter nesta fase ele teria todas as
condições de ser um artilheiro matador ou mesmo um zagueiro alto, célere e
celerado, e jogar na seleção. Mas acontece que ele não tem os cerca de 31 cm,
muito menos os 1.800 gramas de peso. No máximo será gandula e ficará sempre às
margens do campo esperando que os jogadores bem alimentados chutem a bola para
fora e ele corra atrás como se corre atrás de um prato de comida, de um copo
d’água, de uns trocados que não dão para nada, nada além de sopa rala de
mandioca.
O Marido franzino ao tirar a mandioca esturricada da terra
igualmente esturricada a joga para o alto, mata no peito e chuta com um mínimo
de talento o tubérculo para dentro do cesto aos pés da sua Mulher raquítica.
Ele grita, Seleção, vai pra seleção! E você pro raio que o parta, lhe diz a
mulher. Segurando a barriga, porém, ela não deixa de pensar que aquilo não
passa de uma pequena bola: mais uma bola murcha a ser chutada pelo mundo no
país do futebol.
37ª, 38ª, 39ª e 40ª semanas
Era para o bebê estar pronto para vir à luz. Mas sua pele
não tem aspecto liso nem é cor-de-rosa como deveria ser. Os cabelos seriam
sedosos, seriam. As unhas, se tivesse pés e mãos, estariam crescidas,
certamente supercrescidas feito as de um rato. O aparelho sexual estaria
totalmente desenvolvido, não fosse a ausência de testículos. O bebê assumiria a
posição para o nascimento se realmente tivesse forças para nascer. A Mãe
raquítica estaria relaxada esperando só o momento mágico do nascimento.
Estaria.
Parto
Doutor Franz tira seus bisturis e improvisa o parto. O
Marido franzino está rezando e agradecendo a passagem do doutor e de seu
ajudante por ali, pois se dependesse dele a Mulher raquítica já estaria morta
de tanto gritar de dor e por causa da hemorragia que lava suas pernas.
Um rasgo no ventre, e a criatura vem à luz. A mulher para de
gritar. Fraca que está. Doutor Franz olha para a Mulher raquítica, quase
inconsciente, depois para o Marido franzino que ameaça sorrir para o doutor e
pensa em gritar, Golaço! Mas desiste quando vê o pequeno corpo enrugado e
amarelecidesverdeado que não se mexe, nem solta um choro intenso. Doutor Franz
não se contém ao olhar para o imóvel rosto do bebê que lembra mais uma
tenebrosa máscara do carnaval de Veneza do que um anjinho. Uma tenebrosa
máscara de Veneza aportando sem vida no País do Carnaval.
Paulo Sandrini
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