domingo, 5 de janeiro de 2014



aqui

onde os espelhos se turvam
como luas órfãs
e os úteros caem da árvore da ciência do bem e do mal
e rolam no chão
e rolam
infinitamente

aqui

onde os santos nascem com ralos
no lugar da boca
e os cabelos são farpas de algum alfabeto de arame

medusas em aço
inoxidável

aqui
exatamente neste lugar

onde a camisola da irmã carmelita gira em torno do animal
como um satélite
suplício

o boi que eu mesma abati
e pendurei no gancho
e vi sangrar até o fim
e vi que não fechava os olhos depois de morto

na boca vivem centenas
de gritos

nas cabeceiras das camas estão os terços
e elas se acordam à noite
e os rebentam
e os rebentam

as contas rolam no chão como úteros em miniatura
como luas órfãs

como olhos de bois mortos

 Mar Becker

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