duas horas da tarde num Portal do Estoril estranhamente
silencioso (acho que os lançadores de fogos estão com o bucho cheio do almoço –
deviam explodir a si mesmo, chatos insuperáveis) e com um pouco de vento quente
(com a minha mãe: parece que o céu já tá querendo chover – bem, afinal toda
Virada de Ano chove em Guaratuba, não seria nada surpreendente) numa paisagem
de um verde verdíssimo misturado às redes coloridas (vermelha, azul, branca,
laranja) e vazias e as bicicletas das crianças caídas na grama. meu pai fuma
sua cigarrilha na varanda acompanhada de uma dose de uísque, bolhas nos pés da
longa caminhada na areia. um irmão se refugia no ar-condicionado do quarto, o
outro irmão foi comprar carne pro churrasco foi comprar pãozinho com alho foi
comprar carvão comprar álcool comprar as bebidas foi comprar os ingredientes
pra sobremesa... minha missão pra mais tarde é colocar as bicicletas todas na
caçamba da caminhonete e levar encher os pneus naquele posto aqui perto, ordena
meu pai. um pouco antes de iniciar este texto relia (talvez pela quinta vez) o
brilhante Em alguma parte alguma, do mestre Gullar. todo vez que leio a poesia
dele, fico com vontade de comer fruta, entre outras coisas maravilhosas, a
poesia do Gullar me ensinou a comer fruta, o que não é pouco. bem, estou aqui
de frente pro dia, sem camisa, só de bermuda, descalço, sendo picado vez em
quando por mosquitos invisíveis. penso nas mulheres lutando pelo direito ao
topless. sem jamais querer reduzir o assunto, mas até com uma certa graça, me pergunto:
não fizesse tanto calor chegaríamos a tal luta? claro, o fato é que faz calor e
a luta é justa e necessária. vamos lá, Judith Butler, venha passar o verão no
Brasil e nos ajude com tudo isso. me lembro de uma crônica do Paulo Mendes
Campos em que ele, um pouco que ironicamente, escreve que andamos tão nus nos
dias que correm (a crônica é dos anos setenta), que a sedução se daria então
pelo ato de vestir e não de despir. eu falei sedução? aí já reside um ponto
polêmico, porque nem toda nudez tem ou deveria ter tal intuito, não é mesmo? ah
não vou lembrar nada de cabeça das coisas que diz lá o Mendes Campos... segura
um pouco aí, vou buscar o livro lá dentro e já volto. (...) certo, voltei. eis:
pra quem quiser conhecer, leia O amor acaba (ed. Companhia das Letras). a
crônica se chama Da mulher nua à mulher vestida. seguem dois parágrafos
interesses (embora sugiram mais aprofundada pesquisa): “Havelock Ellis anotava
que nas ilhas britânicas existia o tabu da nudez, mas que nem sempre foi assim.
No século XVIII, mulheres da alta linhagem podiam andar nuas em certos
distritos da Irlanda.” e ainda: “Samuel Pepys dá notícia de pessoas excêntricas
que faziam isso até nas ruas de Londres. Já no princípio do século, o autor de
On life and sex acreditava que o tabu da nudez começava a deslocar-se,
anunciando portando, com os novos costumes, uma nova moral.” ah, que coisa, não
sei como vim parar nesse assunto de topless e tudo mais. o Portal do Estoril
não é nenhum condomínio de nudismo, na piscina há os mínimos biquininhos de
sempre e os maiôs, os bermudões e as sungas, com moças gostosas dentro,
velhotas com pelancas, gordões cervejeiros comedores de costela e garotões do
surf, como dizem, tudo junto e misturado. são as últimas horas do péssimo ano
de 2013, que vai findando com um calor que beira os insuportáveis 43 graus.
vontade de arrancar também esta bermuda! tudo gruda. é o último texto que
escrevo neste ano e daqui um pouco faz 14 que o século XXI começou. estou
salivando por uma maçã. levanto, vou até o cesto de frutas. todas estão podres.
meu reino por uma maçã. era gostoso quando elas eram proibidas? 31/12/2013 –
Guaratuba, Portal do Estoril
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