QUADRILHA
Marília Kubota
A voz foi ficando cada vez mais fraca, esquecida
em si mesma. Em vão, o homem tentava reavivá-la na garganta. O cachorro
esperava que o dono resgatasse a voz para comandá-lo: aiô! (Para onde ? ) Porém
não conseguia pronunciar um simples ai. Uma mulher que passava por perto
percebeu que havia um drama ali . Não queria parar, mas como toda a gente,
tinha pressa. Foi andando, virou o pescoço para trás e viu a expressão de
desespero do cachorro. Aquilo a comoveu. Então voltou para onde o homem estava.
E o abraçou. O gesto foi instintivo. Espanto. A voz do homem enrolou-se em
curvas em direção ao interior da garganta. Rejeitou o abraço com veemência, e o
cão mordeu a mulher de boa vontade. Vendo a violência da cena, uma outra mulher
deu uma sacolada no homem sem voz. A sacola estava cheia de compras de mercado.
O homem girou e ficou tonto até cair. A mulher que socorreu a outra a puxou
pelo braço, queria levá-la a um posto de saúde. "Estou bem, estou
bem", disse a abraçadeira, e desvencilhou-se da ajudante. Um ciclista
passando nesse instante, só a viu fazer o gesto que derrubou a outra. Pulou da
bicicleta e agarrou a mulher de boa vontade, pensando se tratar de uma ladra.
Enquanto isso, o homem sem voz havia se recuperado da sacolada. Vendo o
ciclista agarrar a mulher que o abraçara, ficou enciumado. Pegou a bicicleta
dele e a atirou contra o muro. O ciclista largou a mulher de boa vontade e deu
um soco no homem sem voz. A mulher das sacolas de supermercado levantou-se e
começou a distribuir sacoladas em todos. Alguém da vizinhança chamou a polícia,
que levou os meliantes para a delegacia. O delegado, vendo o grupo com
hematomas e olhos roxos perguntou: "E eu pergunto, onde está o amor, minha
gente ? Onde está o amor?" E tirou da gaveta cheia de emblemas e insígnias
um cálice de prata de onde escorria um vinho sangrento. http://micropolis.blogspot.com.br/2014/01/quadrilha.html
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