domingo, 5 de janeiro de 2014

VISÃO DO INFERNO

Repito o que digo todos os anos nesta época. Detesto praia. Abomino calor, suor, queimaduras. Tenho medo de água viva e de bicho geográfico. Nojo de barata na areia. E a nossa beira-mar tem algo de cloaca, de banheiro público. Nem pensar.
O pior é a multidão. A vasta exposição de corpos desnudos e toneladas de celulite, gorduras localizadas, barrigas de cervejeiros. É espetáculo obsceno, não pela nudez, mas por tudo que a nudez revela de grotesco.
Repararam que mulher bonita e inteligente não vai á praia? Rara é a aparição de uma deusa. Dizem minhas amigas bonitas e inteligentes que sol demais envelhece rápido, deixa a pele crestada, produz rugas. E mais: perceberam que a plebe masculina ignara que ocupa as praias não tem sensibilidade, gosto e outros atributos para admirar os seus dotes.
A praia tem sido prova irrefutável de que vivemos numa sociedade de obesos. Quando pinta a exceção costuma ser um corpo deformado em academias de malhação. Outro horror dos horrores. Músculos em excesso, principalmente nas mulheres, é abominável.
Uma doce menina de outros carnavais apareceu-me com voz grossa. Juro, rescendia testosterona. Apertou-me a mão com tanta força que parecia querer mostrar sua nova condição. Deu medo. A menina de falar lento, afetuoso, cheia de graça, agora ostentava bíceps, tríceps, trapézio, glúteos que fariam inveja ao Schwarzenegger em seu melhor momento.
E os seios? Aqueles belos seios juvenis que outrora apontavam para a Lua foram substituídos por peitorais masculinos, achatados, daqueles em que a parte de cima do biquíni parece um adereço feminino em corpo de macho.
Agora há mulheres e também homens obcecados por preenchimentos. Ilustram seus rostos com bocas estranhas, copias mal feitas da boca da Angelina Jolie, mesmo que isso nada tenha a ver com o resto. Sem falar no exagero do uso do Botox, que produz rostos “congelados” sem nenhuma expressão.
Todos esses recursos fazem parte de um arsenal fantástico que promete rejuvenescimento, mas que também causa verdadeiras catástrofes. Na praia, tudo fica exposto. Seios, bundas, coxas e outras áreas do corpo deformadas pela injeção de silicone. Pátio dos horrores.
Descer ao litoral para sentir calor, encontrar os chatos e ver espetáculos teratológicos, melhor ficar em Curitiba. A cidade fica perfeita, com boa parte da população lá embaixo, a torrar sob o sol e a banhar-se num mar excremental contaminado de bactérias, fungos, vírus.
Aqui tudo fica mais agradável. O trânsito melhora, não há excesso de gente em lugar nenhum, não há filas em restaurantes e as salas de cinema ficam civilizadas sem a fauna irritante. Todos sabem, os chatos adoram praia, o que significa que estamos livres deles, ou de sua maioria, durante três meses. É um prêmio.


Fabio Campana

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