Repito o que digo todos os anos nesta época. Detesto praia.
Abomino calor, suor, queimaduras. Tenho medo de água viva e de bicho
geográfico. Nojo de barata na areia. E a nossa beira-mar tem algo de cloaca, de
banheiro público. Nem pensar.
O pior é a multidão. A vasta exposição de corpos desnudos e
toneladas de celulite, gorduras localizadas, barrigas de cervejeiros. É
espetáculo obsceno, não pela nudez, mas por tudo que a nudez revela de
grotesco.
Repararam que mulher bonita e inteligente não vai á praia?
Rara é a aparição de uma deusa. Dizem minhas amigas bonitas e inteligentes que
sol demais envelhece rápido, deixa a pele crestada, produz rugas. E mais:
perceberam que a plebe masculina ignara que ocupa as praias não tem
sensibilidade, gosto e outros atributos para admirar os seus dotes.
A praia tem sido prova irrefutável de que vivemos numa
sociedade de obesos. Quando pinta a exceção costuma ser um corpo deformado em
academias de malhação. Outro horror dos horrores. Músculos em excesso,
principalmente nas mulheres, é abominável.
Uma doce menina de outros carnavais apareceu-me com voz
grossa. Juro, rescendia testosterona. Apertou-me a mão com tanta força que
parecia querer mostrar sua nova condição. Deu medo. A menina de falar lento, afetuoso,
cheia de graça, agora ostentava bíceps, tríceps, trapézio, glúteos que fariam
inveja ao Schwarzenegger em seu melhor momento.
E os seios? Aqueles belos seios juvenis que outrora
apontavam para a Lua foram substituídos por peitorais masculinos, achatados,
daqueles em que a parte de cima do biquíni parece um adereço feminino em corpo
de macho.
Agora há mulheres e também homens obcecados por
preenchimentos. Ilustram seus rostos com bocas estranhas, copias mal feitas da
boca da Angelina Jolie, mesmo que isso nada tenha a ver com o resto. Sem falar
no exagero do uso do Botox, que produz rostos “congelados” sem nenhuma
expressão.
Todos esses recursos fazem parte de um arsenal fantástico
que promete rejuvenescimento, mas que também causa verdadeiras catástrofes. Na
praia, tudo fica exposto. Seios, bundas, coxas e outras áreas do corpo
deformadas pela injeção de silicone. Pátio dos horrores.
Descer ao litoral para sentir calor, encontrar os chatos e
ver espetáculos teratológicos, melhor ficar em Curitiba. A cidade fica
perfeita, com boa parte da população lá embaixo, a torrar sob o sol e a
banhar-se num mar excremental contaminado de bactérias, fungos, vírus.
Aqui tudo fica mais agradável. O trânsito melhora, não há
excesso de gente em lugar nenhum, não há filas em restaurantes e as salas de
cinema ficam civilizadas sem a fauna irritante. Todos sabem, os chatos adoram
praia, o que significa que estamos livres deles, ou de sua maioria, durante
três meses. É um prêmio.
Fabio Campana
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