Sonhei com chuva de corvos
Estardalhaço acima das cabeças
E todos os seres humanos
Agachados desesperançados
Aniquilados, mortos de fome
Reproduzindo
Bilhões de vezes aquela cena:
Criança meio ao lixo
Um abutre pousa satírico
Esperando a morte iminente
Para devorar sua pele
Zero
Zero Grau
Zero Grau de Ternura
Mundo vasto mundo imundo
Faz esgotar o arsenal de Ternura
E a Esperança – cancerosa –
Debanda no olhar da última rosa
O aço - coração - rangendo
A água da realidade a enferrujar
As alavancas dos sonhos
Tudo escuro - O mundo anda escuro
Ninguém admite
Mas o mundo anda muito escuro
Sair por aí
Andar
Sem parar
Em linha reta
Eternamente
Em algum dia - final de dia
Em um momento de ocaso
Assim quando menos esperar
A Ternura chega, devagar
Misteriosa, ao meu encontro
- A Ternura -
Cantando uma canção em Esperanto
Ou em Mandarim
Ou em Aramaico
A Ternura trôpega
Metralhada
Suada
Alquebrada
Quiçá na última nota da canção
Ela caia em meus braços
E como aqueles espíritos que incorporam
Incorpore em mim e em todo Mundo.
Bárbara Lia / 2010
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