quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Ana Cristina César

a garota de belfast ordena
a teus pés alfabeticamente

por Marília Garcia


98 voltas pelo parque antes de cair em
círculos, parecia a garota de belfast com
sua memória dobrada como um pára-quedas
dentro do tecido eletrizado e que dizia pode ou não pensar
em algo definitivo. enquanto falava descia a
escada lateral recortando os ruídos
da orquestra. a roda da bicicleta
girando em loop esfarelando os
reflexos no ar e seis horas parada diante
do ralo, pode ou não pensar, sentada na beira do
quarto. olha de longe quando o carro
passa, descer à noite pelos trilhos
quando tudo é uma vingança, levanta
para ouvir direito e não tem mais o eco
(passagem é a ligação externa
entre os dois prédios).
fala de pontes atravessando os túneis
da cidade e ordena a teus pés
alfabeticamente

A anoitecer sobre a cidade
A câmera em rasante
A correspondência
A curriola consolava
A dor
A espera
A intimidade era teatro

e depois de algumas linhas

A tomar chá, quase na borda
A voz em off nas montanhas

pode ou não pensar que era sua voz em mountain hill
a uma velocidade de 1 km/h ou mil. antes
de voltar para a irlanda começou a perda já. entende
que só depois de o blindex esfarinhado contra a
cabeça, só em poucos segundos até que a cabeça
contra o blindex, pode ou não, mas era apenas parte
do trajeto, não podia calcular as noites ou linhas
em que passaria.

........................como extrair o áudio de uma imagem
congelada era a etiqueta que colava nas paredes
para tentar descobrir como chegar com precisão
e ao fundo a voz pela fresta
a ordenar este livro:

Agora chega
Agora é a sua vez
Agora estamos em movimento
Agora pouco sentimental
Água
Água na boca
Agulhadas

ou vertigem das alturas. você pode acordar trinta anos
depois com a imagem ainda mais viva
quando o quarto está às cegas

As cartas
As cartas, quando chegavam
As lupas desistem
As mulheres e as crianças são as primeiras
Asas batendo
Atravessa a ponte
Atravessando a grande ponte
Atravessa vários túneis da cidade
Autobiografia. Não, biografia
Aviso que vou virando um avião
Azul deixo as chaves do 1114 soltas no balcão
Azul que não me espanta

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