Luiz Felipe Leprevost
um deles volta com sacos plásticos nas mãos. dentro, o
líquido que joga em cima dos primeiros bancos, sobre as pessoas. e você aqui.
só entendo o que está por vir quando o outro se abaixa, coloca um pequeno
botijão de gás no piso e joga um fósforo aceso em sua direção. o estrondo, a
fumaça preta se espalha por todos os lados. não consigo respirar, nem ver
ninguém. só você, no meio do inferno. o calor insuportável se mistura aos
gritos e à tosse das pessoas. corro em direção à parte traseira do trem. só
penso em não morrer. preciso sair. encontro uma janela quebrada e me jogo nos
seus braços. o tiroteio continua e os carros dão ré na avenida. deitado no
asfalto, olho o meu braço que escreve e reparo que pega fogo. tiro o casaco
preto que estou usando mas não consigo tirar a dor. a pouca pele que sobra no
braço e nas mãos, preta como carvão. o lado direito do meu rosto derrete
derrete e derrete. me arrasto perdendo o rosto no asfalto. não consigo
levantar, as pernas e os braços derretem e derretem também. dois deles correm
na minha direção. um terceiro me pega no colo e me leva para o carro. de
repente, estamos no hospital. no hospital todos tem a sua cara. agonizo. você e
você e você e você e você, passam por mim sem parar, mas nunca nenhuma das suas
caras vem me socorrer.
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