sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

(anotações para um romance)

Haja metafísica! Haja sublimação. Puxar todos os fios do coração. Um a um. Perceber que não vai desatar nunca o que foi atado com quatro mãos. Preciso das outras mãos que sabem o segredo dos pontos e das estrias a enlear arestas de aço ao redor da carne. A cada dia e a cada suspiro algo fecha como uma porta de ferro ao redor do coração. E meus dedos desconhecem o traçado. Preciso a voz brincalhona para sanar o ar, lavar a gravidade do que foi escrito. Perdoe por tanto amor, pela poesia intensa. Perdi a conta das vezes que li, ouvi, e com metáforas ou de forma crua disseram _ do quanto sou intensa. Que bom. Reclusa, sou um vaso de ternura, intensa. A dois sou a coragem de viver o amor, intenso. Apaga tudo que escrevemos em meses de estio. Sim, era terrível a cara do animal que nos acossou com tanta gana. Ele tem um nome _ Amor _ e sabemos o quanto ele devora o fígado, dilui o sangue e rasga sem piedade a pele. Em seu nome, roseiras foram sacrificadas séculos sem conta. Em seu nome, as coisas pequenas ganham ares de monarquia. Ele não traz laços lilases, corações saltitantes, canções bregas, suspiros. Ele veste a pele feroz da vida. Por acossar-nos com tanta fúria, ficamos sem ação. Não se mata o amor matando o objeto amado. E como querer matar a arvore atirando em seus frutos. Somos os frutos e a raiz deste amor jamais alcançaremos. Mora no âmago onde nada alcança. Haja metafísica! E esta alegoria toda tenta te alcançar. Eu que não posso te alcançar de outra maneira. Não sei onde estas. Onde vives. Com quem vives. E estamos atados. Isto soa como sentença fatídica. E necessitamos força para sair desta espiral. Não tenho como sussurrar ao teu ouvido. Não tenho como dizer o quanto necessito de ti. Uma palavra nossa. Untada dos encantamentos humanos, da nossa força, benevolência. Tua alma rara. Meu interior materno feminino. Tudo isto enleado deve curar meu coração, teu coração. E não tenho como dizer... Nada onde eu possa depositar um bilhete. Nenhum sinal de fumaça de uma fogueira pequena em uma cidade tão grande. Não existe aqui um monte para emitir Um SOS em fumaça branca. Pombo correio também não existe. Resta o coração contrito, envolto em barras, que se fecham. E espero tuas mãos, a voz, o coração. Esta questão envolve a liberação. Um canto novo. Um encontro novo. A neve antiga. Quase trinta anos de ternura, onde eu sempre te vi, assim: Um anjo triste, calado, encostado em uma amurada. E a vida nem pra gritar com a força dos oráculos: Sabe aquele moço no balcão? Um dia ele vai roubar teu coração.


Bárbara Lia

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