(anotações para um romance)
Haja metafísica! Haja sublimação. Puxar todos os fios do
coração. Um a um. Perceber que não vai desatar nunca o que foi atado com quatro
mãos. Preciso das outras mãos que sabem o segredo dos pontos e das estrias a
enlear arestas de aço ao redor da carne. A cada dia e a cada suspiro algo fecha
como uma porta de ferro ao redor do coração. E meus dedos desconhecem o
traçado. Preciso a voz brincalhona para sanar o ar, lavar a gravidade do que
foi escrito. Perdoe por tanto amor, pela poesia intensa. Perdi a conta das
vezes que li, ouvi, e com metáforas ou de forma crua disseram _ do quanto sou
intensa. Que bom. Reclusa, sou um vaso de ternura, intensa. A dois sou a
coragem de viver o amor, intenso. Apaga tudo que escrevemos em meses de estio.
Sim, era terrível a cara do animal que nos acossou com tanta gana. Ele tem um
nome _ Amor _ e sabemos o quanto ele devora o fígado, dilui o sangue e rasga
sem piedade a pele. Em seu nome, roseiras foram sacrificadas séculos sem conta.
Em seu nome, as coisas pequenas ganham ares de monarquia. Ele não traz laços
lilases, corações saltitantes, canções bregas, suspiros. Ele veste a pele feroz
da vida. Por acossar-nos com tanta fúria, ficamos sem ação. Não se mata o amor
matando o objeto amado. E como querer matar a arvore atirando em seus frutos.
Somos os frutos e a raiz deste amor jamais alcançaremos. Mora no âmago onde
nada alcança. Haja metafísica! E esta alegoria toda tenta te alcançar. Eu que
não posso te alcançar de outra maneira. Não sei onde estas. Onde vives. Com
quem vives. E estamos atados. Isto soa como sentença fatídica. E necessitamos
força para sair desta espiral. Não tenho como sussurrar ao teu ouvido. Não
tenho como dizer o quanto necessito de ti. Uma palavra nossa. Untada dos
encantamentos humanos, da nossa força, benevolência. Tua alma rara. Meu
interior materno feminino. Tudo isto enleado deve curar meu coração, teu
coração. E não tenho como dizer... Nada onde eu possa depositar um bilhete.
Nenhum sinal de fumaça de uma fogueira pequena em uma cidade tão grande. Não
existe aqui um monte para emitir Um SOS em fumaça branca. Pombo correio também
não existe. Resta o coração contrito, envolto em barras, que se fecham. E
espero tuas mãos, a voz, o coração. Esta questão envolve a liberação. Um canto
novo. Um encontro novo. A neve antiga. Quase trinta anos de ternura, onde eu
sempre te vi, assim: Um anjo triste, calado, encostado em uma amurada. E a vida
nem pra gritar com a força dos oráculos: Sabe aquele moço no balcão? Um dia ele
vai roubar teu coração.
Bárbara Lia
Nenhum comentário:
Postar um comentário