Volume reúne textos do poeta sobre Bashô, Trotski, Jesus e
Cruz e Souza
Ricardo Corona - Especial para O Estado de S.
Paulo
O poeta Paulo Leminski
O poeta estava certíssimo. Ler suas biografias uma após a
outra deixa ainda mais perceptível a sua audácia ficcional. Uma radicalidade
que é difícil de encontrar em literatura do gênero. Cabe aqui uma observação:
Vida merece ser discutido ao lado de narrativas biográficas que vêm sendo
produzidas na contemporaneidade que se aproximam da novela autobiográfica, da
ficção com enxerto biográfico, feita a do mexicano Mario Bellatin, de Biografia
Ilustrada de Mishima. Guardadas as diferenças, um tipo de narrativa da qual
podemos dizer que Leminski é um dos precursores.
Em Vida, a máquina de narrar leminskiana em calibragem
medida para que “verdades”, por um lado, mantivessem-se falíveis aos limites de
fundo histórico, e, por outro, potencializassem-se no processo criativo.
Alquimia textual para poucos e investigando sempre no limite que busca afirmar
a vida como matéria extraordinária. A vida é gesto em acontecimento e, por
vezes, acesso direto à história. Deste modo, objeto que requer escritas que
possam satisfazer a esse rastro que é a vida em seu processo, especialmente
quando este é, em si, criativo, inventivo, radical. Incluídos aí, claro, o riso
e a desconstrução de si mesmo. “Bios”, do grego, quer dizer “vida”, e
“graphein”, “escrever, arranhar”. Em Leminski, a segunda acepção do vocábulo –
“arranhar” –, em nada – cogito eu –, pareceu-lhe desconexa.
A ideia de rasura é um agudo sentido do inacabado que expõe
a palavra (graphein) à sua vulnerabilidade. Ao narrar estas vidas, entrou em
jogo a aproximação e o distanciamento do verbo (verbu). Ou, mais precisamente:
do seu referente intelectivo que se supõe imanente por querer registrar a
verdade: “dou minha palavra”. A armadilha do verbo sempre está armada, pois
sugere a quem escreve que o que se está escrevendo é à vera, ou seja, pra
valer, a sério, portanto. Sobretudo em escritas de vida. As biografias escritas
por Leminski assumem um pertencimento mais propriamente da literatura, da
escrita criativa, ao passo que, maravilhosamente, não se furtam do acesso à
história como entorno destas vidas.
Percebe-se que em Vida, desde o título até a poesia que
envolve todas estas vidas, o autor se avizinhou de seus biografados e fez desta
zona de vizinhança, ou melhor, destes estratos de vida, uma energia (um devir)
para a sua escrita.
Ao lê-las não há como não entrar, por exemplo, nos quatro
feelings preparados por Leminski para Cruz e Souza: Sabishisa, spleen, banzo e
blues. E, no caso de Jesus, o que há é um profeta-poeta de antes da ideia de
Cristo. A busca ao vaga-lume do haikai é a caminhada até Bashô. E Trotski? Este
é um personagem de um quase romance policial, além de atuante maior da
revolução russa, claro.
Leminski escreveu com extratos biográficos que melhor
puderam dizer da radical experiência destas quatro vidas, o que, nas palavras
de Manoel Ricardo de Lima, é “pedir providências e apontar como a vida
poderia/deveria se manifestar através de uma radicalização política da arte
como experiência”. E o fez num gesto duplamente amoroso, ou seja, com admiração
e ousadia criativa.
É que, distraidamente, certo dia Leminski escreveu: “Podem
ficar com a realidade / esse baixo astral / em que tudo entra pelo cano // eu
quero viver de verdade / eu fico com o cinema americano”.
RICARDO CORONA É POETA E AUTOR DE CURARE (ILUMINURAS)
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