"Cavalos. Eu gosto de cavalos. Não posso ter meu bicho
de estimação em casa. Quem gosta de elefantes também não. Abro a janela do
apartamento. Procuro no céu cavalos voando. Procuro na terra cavalos pousados
sobre pinheiros. É mais provável enxergar automóveis estacionados sobre
pinheiros. Eu insisto em enxergar cavalos. Eles passam voando. Vão na direção
do litoral. Eles sempre voltam bronzeados. Cavalos encontram éguas. Copulam em
pleno vôo. Ouço gargalhadas. Cavalos e éguas riem muito depois de copular em
pleno vôo. São sábios. Riem muito depois de copular. São felizes. Sabem
gargalhar em pleno vôo. Um ou outro dá um vôo rasante. Um ou outro passa perto
da minha janela. Quer me assustar cavalo? Claro que não. Sabe que eu não me
assusto com ele. Somos velhos amigos. Formam grupos. Se exibem para mim.
Bailam. Três deles se escondem numa nuvem. Outros me dão as costas. Ficam
olhando para as estrelas. Um deles pára sobre a lua. Eclipse. Bato palmas. O
cavalo tenta se curvar para agradecer. Meus cavalos vão aos pinheirais. São
disseminadores das sementes do pinho. Eu gosto de cavalos. Não posso ter meu
bicho de estimação em casa. Quem gosta de elefantes também não."
Manoel
Carlos Karam
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