quinta-feira, 4 de junho de 2015

SÔBOLOS RIOS QUE VÃO


Olha, as aves todas se calaram, você me disse. Aí eu me virei para o seu lado e vi que você chorava. De repente era como se não somente as aves mas todos os animais do planeta – vertebrados e invertebrados – tivessem se calado para que eu escutasse o rolar de uma lágrima pelo seu rosto. Foi como o apagar de um círio numa catedral vazia. Tive vontade que cair de joelhos e pedir perdão por todas minhas blasfêmias. O céu estava muito longe e o sol era uma bola de fogo mergulhando no oceano. Chorei também. Chorei todas as mágoas de minha linhagem desde a expulsão do paraíso. Depois fez-se noite em nossos corações exaustos e minha cabeça no seu colo era o sinal de que talvez um anjo pudesse ter ouvido a prece que eu não chegara a articular. De madrugada, acordamos com a algaravia dos pássaros. Rimos e choramos de novo. Agora de alegria. Havíamos sobrevivido ao fim do nosso mundo.

Otto Leopoldo Winck

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