Olha, as aves todas se calaram, você me disse. Aí eu me
virei para o seu lado e vi que você chorava. De repente era como se não somente
as aves mas todos os animais do planeta – vertebrados e invertebrados –
tivessem se calado para que eu escutasse o rolar de uma lágrima pelo seu rosto.
Foi como o apagar de um círio numa catedral vazia. Tive vontade que cair de
joelhos e pedir perdão por todas minhas blasfêmias. O céu estava muito longe e
o sol era uma bola de fogo mergulhando no oceano. Chorei também. Chorei todas
as mágoas de minha linhagem desde a expulsão do paraíso. Depois fez-se noite em
nossos corações exaustos e minha cabeça no seu colo era o sinal de que talvez
um anjo pudesse ter ouvido a prece que eu não chegara a articular. De madrugada,
acordamos com a algaravia dos pássaros. Rimos e choramos de novo. Agora de
alegria. Havíamos sobrevivido ao fim do nosso mundo.
Otto
Leopoldo Winck
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