sexta-feira, 5 de junho de 2015

TERRA DESOLADA




A tempestade foi tão grande
que todas as palavras perderam o seu sentido usual.
Ela disse “amor” e eu entendi “aleivosia”.
Quando eu murmurei “perdão”,
foi como se um terrível brado de guerra
varresse a terra dos Timbiras. De nada
adiantou as garrafas de Desperados
pois o seu sabor me lembrou o do Guaraná Polar
de minha infância em Porto Alegre.
Nem caminhar até o Bosque do Papa,
pois os antigos sítios geográficos também foram deslocados.
À noite não reconheci nenhuma constelação
e a lua me pareceu estranhamente diminuta.
Somente as estrelas me falaram.
Mas o que elas diziam à distância
era que eu, por ter ousado
conspurcar vetustos palimpsestos,
fora condenado a pervagar sem fim
por esta terra desolada
– sem mais a esperança
de vislumbrar no seu rosto adolescente
o velho sorriso de nossas tardes sepultadas.
Otto Leopoldo Winck

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