sexta-feira, 20 de setembro de 2013

NUNCA SEREMOS TÃO FELIZES COMO AGORA

um poema do meu livro NUNCA SEREMOS TÃO FELIZES COMO AGORA

virginia percebeu a loucura voltando, vincent percebeu a loucura voltando, as rosas perceberam a verdade. as horas perceberam a loucura das rosas, ouvir a verdade. os quadros sabiam a verdade, desde o início os quadros ouviam e gritavam a verdade – a beleza está por toda parte. todos os outros estavam surdos à verdade. esta surdez, a forma mais compreensível de mediocridade, não apenas uma aceitável forma de ausência de coragem, mas a mais segura e confortável forma de ser – inútil paisagem. loucura é ouvir o que me grita beleza por toda parte. virginia viu, vincent escreveu, que inútil era amar a arte. pois a vida é surda a esse amor. há dias em que a vida é surda a todos os amores. a vida jamais saberá nos amar como nos ama a arte. loucura é apenas ouvir o que me grita beleza por toda parte, é ouvir o que me grita luas por todos os lagos, o que me grita luas e lagos por todos os lados, o que me grita virginias e vincents por todos os quadros. os outros estão surdos, e pensam que estão certos, pensam que sabem o que sentem os pianos, o que os pianos perderam, tudo o que os pianos não perdoaram. apenas porque estão surdos, eles pensam que podem ser beethovens. e assim desperdiçam pianos a qualquer hora, a qualquer rosa, a qualquer quadro. vincent, virginia: tanto viver que para eles era imperdoável: tanto amar que para eles era insuportável. pois tudo era belo. no fim tudo tinha sido belo, mas os outros diziam que não. eles diziam que toda aquela beleza era maligna e não magnólias, decidiram que tal beleza era culpada. e eu, ao falar dela, mais um cúmplice de suas incandescências; sobretudo para as rosas, um réu confesso de todo o seu arder, aquecer e aclarar.
virginia percebeu a loucura voltando, ela percebeu que as coisas belas eram as culpadas. a beleza era a única culpada por nós não amarmos todas as coisas.
vincent percebeu a loucura voltando, ele percebeu que as coisas feias eram inocentes. as coisas feias não eram feias, elas sempre foram inocentes de toda a nossa falta de amor.




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