sábado, 30 de janeiro de 2016

Estou num pequeno templo da alta burguesia curitibana. Tomo um café expresso. Leio um ensaio sobre Baudelaire. A alguns metros, um casal muito antigo – ela, de casaco vermelho, cabelo armado tingido de loiro, deve ter pelo menos 80 anos – cantam New York. Ele toca uma guitarra modernosa, dessas que tem só o contorno. Ela canta. Até que bem. “O tempo não se deixa perceber somente através de ruínas e monumentos, mas também por sua ação corrosiva que ataca tudo, até o novo” – leio. Atrás de mim há uma festa de criança. Gritos, uivos, choro, pais em polvorosa. Mais à frente, uma jovem amamenta. Seu rosto transpira frescor e otimismo. A tarde do sábado avança e de repente, quando me dou conta, é noite – vejo através do teto envidraçado. Não sei se peço mais um café (é caro, daí minha hesitação), se volto para casa, se leio mais um pouco. Agora a dupla – seria um casal? – tocam Yesterday, a música mais executada de todos os tempos. Em Baudelaire se mesclavam amor e ódio à modernidade que então nascia. Repulsa e fascínio. As coisas nunca são claras. A gente sempre ama aquilo que odeia. A gente sempre odeia aquilo que ama. Vindo para cá topei com um rapaz escarafunchando sacos de lixo – no bairro mais rico de Curitiba. Fiquei constrangido ao passar por ele. Constrangido por ele? Por mim? Talvez por ver que ele via que eu o via nesta situação degradante. Mas ele nem ligou. Quem tem fome não se importa com aparências. Um estômago vazio não quer saber de etiquetas. Temi (sim, temi, vejam como somos egoístas) que ele me pedisse um trocado e imediatamente me lembrei que não trazia moeda alguma comigo. No entanto, mais adiante gastei oitenta reais com dois livros. A anciã canta agora outro clássico kitsch. A modernidade é isto, Baudelaire, um pastiche de si mesma. As crianças correm, perturbam, como é natural das crianças. O nenê parou de mamar. As pessoas conversam, sorriem. Sim, aqui nesta ilha estão protegidas dos noias, da violência policial, da guerra de gangues... Se queixam da crise mas não conhecem a crise. Talvez tenham um sobrinho morto num acidente de automóvel ou até um conhecido assassinado num assalto. Mas nunca saberão o que é ter um filho executado pela polícia. Vou me levantar e me dirigir até o ponto na Praça Osório, a um quilômetro daqui. Sei que lá fora está frio e eu não vim agasalhado. Não estou na Paris do século XIX mas na Curitiba do século XXI. Mas sou, como todos, um homem na multidão. Anônimo. Sozinho. Perdido. E só tenho esta certeza: nunca serei Baudelaire.

Julho/2015


Otto Leopoldo Winck

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