domingo, 1 de janeiro de 2017


descendo a serra na direção do litoral
com fugidos passos desci a serra até o litoral
ainda ontem senti meu desespero à espera de mim
meus olhos atentos em cada precipício descomunal
tudo o que conhecemos é um nosso desconhecido sem fim
e em Guaratuba o verão já aguarda por reparos
aí está um jeito bem sem jeito de salvar
os pássaros
posso louvar astros que se movem
de repente das translações chegou a crise
planetas estrelas num balé de que não fogem
na terra, sob cascos, desde que se pise
uvas sob a chuva que chove a cântaros
eis um jeito imperfeito de salvar
os pássaros
chicotadas dos trovões rasgam o tempo
e arrastam o dom bom na voz da minha vó
mas até os lógicos se penduram no profeta imenso
e em Sodoma virou estátua de Sal a garota de Ló
mas não é motivo suficiente pra que venham tirar sarro
pois seria um jeito suspeito de salvar
os pássaros
sou indigno do livro do céu da fé das evidências
das fontes do enigma da matéria invisível
da ciência que esmiúça os nós da nossa existência
e da manhã, que é uma mãe, sou um filho risível
das plantas da água de tudo até dos ácaros
e aí está um jeito, digamos, rarefeito de salvar
os pássaros
o amargo amor das extremadas cobras
o cosmos das pedras as outras ostras iletradas
abelhas, são manuscritos de mel suas obras
e o corpo dos sapos atropelados na estrada
isso existe à revelia da glória dos píncaros
e aí está um jeito há muito eleito
de salvar os pássaros


 Luiz Felipe Leprevost

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