não há rosto possível para mim
nada se oferece à deriva deste segredo
a possibilidade de um gesto no escuro
estando a sós com o infinito
me escoro numa travessia de sede
e aprumo aquele gole d'água de que o poeta
falou, longínqua no percurso da palavra
que oferece senão a ganância da expressão
encontro nos olhares o exílio correspondente
àqueles que trazem o barro de sua terra perene
tão vívido quanto a nudez do agora
para os que já não se afiguram à paisagem
para os sem território
para aqueles deitados no poente
que sabem a noite e o marcapasso
tornei a cortar meus cabelos
a encarar no espelho a ruptura diária
diáfanos dias, como a lágrima que
em sua salinidade e transparência
perscruta uma emancipação
não há desenho de onde estou
não há silhueta que me recorte
não há fora nem há dentro
não há viagem
me abrigo entre os sem voz
os sem esperança
os que continuam a vagar
cansados deste sonho lúcido
vívidos de outra ordem
entregues aos vestígios de uma vida
que escorre e lança seus peixes
numa entrega sem aras
porque também já não se encaixam
nos mecanismos de nenhum sonho.
Roberta Tostes Daniel
Nenhum comentário:
Postar um comentário