terça-feira, 9 de abril de 2013

Briela


Luiz Felipe Leprevost

"briela: despia meus cheiros. tirava meus brincos. com calma e precisão meus tornozelos deitados. beijava as omoplatas sem vôo. o desejo, tubarão com trinta mil mandíbulas de vidro estilhaçado. um cafuné, sou devastada. não adianta arremessar pássaros no precipício. ferocidade o contorno da boca, o sorriso, ondas desamparadas a arrebentar contra o coral dos dentes. a lâmina da noite chove gotas. sombras se infiltram. jorram urubus de um fogo engordurado, na serração. o fogo oculta o que devora. uma certa paralisia estilhaçada a morrer dentro da trama. o chão, o pó dos móveis têm pena de mim. tudo o inverno do soluço. é mais do que passada a hora de recolher brincos, roupas, pele, odores, o saco de lixo do banheiro. mais que já botar os olhos no olho da rua pro lixeiro levar junto dos urubus e de outros estragos, essas coisas que perderam a validade mas tem gente que come."

...

*é um trecho da primeira peça que escrevi na vida, Tua passividade me embrutece. o poeta, com seu lirismo desbraguilhado (como diria, tirando sarro de mim, o Edson Falcão) sempre atrapalhou um tantinho o dramaturgo (este, coitado, tão impreciso). estava aqui dando uma espiada no meu passado dramatúrgico e me assaltou o trecho. a propósito, Briela é (era, não sei) uma fruta.

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