Luiz Felipe Leprevost
"briela: despia meus cheiros. tirava meus brincos. com
calma e precisão meus tornozelos deitados. beijava as omoplatas sem vôo. o
desejo, tubarão com trinta mil mandíbulas de vidro estilhaçado. um cafuné, sou
devastada. não adianta arremessar pássaros no precipício. ferocidade o contorno
da boca, o sorriso, ondas desamparadas a arrebentar contra o coral dos dentes.
a lâmina da noite chove gotas. sombras se infiltram. jorram urubus de um fogo
engordurado, na serração. o fogo oculta o que devora. uma certa paralisia
estilhaçada a morrer dentro da trama. o chão, o pó dos móveis têm pena de mim.
tudo o inverno do soluço. é mais do que passada a hora de recolher brincos,
roupas, pele, odores, o saco de lixo do banheiro. mais que já botar os olhos no
olho da rua pro lixeiro levar junto dos urubus e de outros estragos, essas coisas
que perderam a validade mas tem gente que come."
...
*é um trecho da primeira peça que escrevi na vida, Tua
passividade me embrutece. o poeta, com seu lirismo desbraguilhado (como diria,
tirando sarro de mim, o Edson Falcão) sempre atrapalhou um tantinho o
dramaturgo (este, coitado, tão impreciso). estava aqui dando uma espiada no meu
passado dramatúrgico e me assaltou o trecho. a propósito, Briela é (era, não
sei) uma fruta.
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