Rodrigo Madeira
Há esta menina que me espera impaciente. O corpo de
terremoto adiado. Como uma revoada de vespas, sorri - talvez o sorriso que mona
lisa não pôde. Será uma fúria? diz coisas na língua das flores, quase se faz
entender; prestes a traduzi-la, e súbito põe-se a falar na língua franca dos
peixes de águas fundas. Espero a fio o dia em que me deixará sem esboçar sequer
o arco-íris. Nas tardes de verão me arrasta pelo braço, em redor de galerias,
como uma enchente ou um carnaval de rua, e à noite sob meu corpo, mais molhada
que de manhã cedinho, secreta um orvalho que inaugura por dentro os dias.
De repente a menina de antes que eu nunca vira: respiração
monótona, incapaz de comoções e ventos, sua presença de passarinho morto, o
vulcão já extinto, as mãos abertas, a língua que é a minha, os olhos que
perderam aquele brilho da bomba, a especiosa nudez, ora desenganada, sem trás
dos montes, sem morte na esquina, sem horizontes de abandono, sem caminhos de
sustos, sem esfinge na encruzilhada das pernas. Crisálida de trás pra frente.
Observo-a pela primeira - última - vez. Vesti-me e ganho a rua sem fazer
barulho ou lágrimas.
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