(Um escritório sombrio. Pilhas de livros, papéis, um copo
pela metade, um computador. O autor e o eu lírico conversam, sentados em velhas
poltronas.
São como gêmeos idênticos, só que o eu lírico parece mais
jovem, suas roupas -- iguais às do autor -- são mais limpas e seus gestos mais
enérgicos e desenvoltos.)
AUTOR: Ah, meu amigo, como eu te invejo. Eu te criei mas
hoje é você que é admirado!
EU LÍRICO: Esta é a sina de todo criador: tornar-se menor
que a sua criatura.
AUTOR: Maldita sina esta! Afinal de contas, sem eu, você não
existiria.
EU LÍRICO: Mas depois de você deixar de existir, eu
continuarei existindo e poderei levar seu nome adiante.
AUTOR: Grande consolo! Como disse Camus, a única glória que
vale a pena é aquela que se vive.
EU LÍRICO: Mas nada impede, seu ranheta, de você participar
da minha glória, que aliás não é grande coisa.
AUTOR: Estou pensando em parar de escrever.
EU LÍRICO: Por quê?
AUTOR: Aí você morre e ninguém mais vai me confundir com
você.
EU LÍRICO: Você não faria isso.
AUTOR: Ah, faria sim. Aliás, estou cansado de ser escritor.
Literatura não serve pra nada. Só toma o nosso tempo. Agora, por exemplo, eu
deveria estar corrigindo porovas e lançando notas, e estou escrevendo esta
bosta em que discuto com você.
(O autor se levanta e se aproxima do eu lírico.)
AUTOR: Desapareça, criatura, eu te ordeno.
(A luz se apaga. Quando torna a acender, os dois estão
trocados, sentados um na poltrona do outro.)
EU LÍRICO: Ah, ah, agora eu sou você. Fique quieto e faça o
que eu mando.
AUTOR: Meu Deus, o que houve? O que você vai fazer de mim?
EU LÍRICO: Vou revelar a todos quem você é.
AUTOR: Para com isso! Eu dei o melhor de mim e te crei
superior a mim e é assim que você me paga?
EU LÍRICO: Nunca confie num eu lírico. Não é esta a regra
que você ensina em suas aulas?
(O autor se levanta bruscamente e se lança sobre o eu
lírico. Brigam. Depois de alguns minutos, os dois estão exaustos e em
frangalhos. E já não se sabe quem é quem.)
Otto Leopoldo Winck
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