segunda-feira, 7 de outubro de 2019


(Um escritório sombrio. Pilhas de livros, papéis, um copo pela metade, um computador. O autor e o eu lírico conversam, sentados em velhas poltronas.
São como gêmeos idênticos, só que o eu lírico parece mais jovem, suas roupas -- iguais às do autor -- são mais limpas e seus gestos mais enérgicos e desenvoltos.)

AUTOR: Ah, meu amigo, como eu te invejo. Eu te criei mas hoje é você que é admirado!

EU LÍRICO: Esta é a sina de todo criador: tornar-se menor que a sua criatura.

AUTOR: Maldita sina esta! Afinal de contas, sem eu, você não existiria.

EU LÍRICO: Mas depois de você deixar de existir, eu continuarei existindo e poderei levar seu nome adiante.

AUTOR: Grande consolo! Como disse Camus, a única glória que vale a pena é aquela que se vive.

EU LÍRICO: Mas nada impede, seu ranheta, de você participar da minha glória, que aliás não é grande coisa.

AUTOR: Estou pensando em parar de escrever.

EU LÍRICO: Por quê?

AUTOR: Aí você morre e ninguém mais vai me confundir com você.

EU LÍRICO: Você não faria isso.

AUTOR: Ah, faria sim. Aliás, estou cansado de ser escritor. Literatura não serve pra nada. Só toma o nosso tempo. Agora, por exemplo, eu deveria estar corrigindo porovas e lançando notas, e estou escrevendo esta bosta em que discuto com você.

(O autor se levanta e se aproxima do eu lírico.)

AUTOR: Desapareça, criatura, eu te ordeno.

(A luz se apaga. Quando torna a acender, os dois estão trocados, sentados um na poltrona do outro.)

EU LÍRICO: Ah, ah, agora eu sou você. Fique quieto e faça o que eu mando.

AUTOR: Meu Deus, o que houve? O que você vai fazer de mim?

EU LÍRICO: Vou revelar a todos quem você é.

AUTOR: Para com isso! Eu dei o melhor de mim e te crei superior a mim e é assim que você me paga?

EU LÍRICO: Nunca confie num eu lírico. Não é esta a regra que você ensina em suas aulas?

(O autor se levanta bruscamente e se lança sobre o eu lírico. Brigam. Depois de alguns minutos, os dois estão exaustos e em frangalhos. E já não se sabe quem é quem.)

Otto Leopoldo Winck


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