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quarta-feira, 20 de maio de 2015

PIAZZOLA


buenos aires
hora zero
piazzolla,
o que faz aí?
tá certo, têm algumas estrelas cadentes
mas...
o palco não combina melhor com os teus sapatos?
diga-me, piazzolla
quantas unhas são necessárias para arranhar o pescoço de um tango aflito?
o teu bandoneon exala fervor
e o fervor habita o céu e o inferno
cabe nas preces e nas súplicas
dos anjos barrocos em chamas
piazzolla!?
está rasgando tangos com os demônios celestes?
está deflorando notas com os pupilos de lúcifer?
ao menor indício do teu som
libertinos viram seres alados
e os providos de asas sucumbem ao centro da terra
um brinde aos que te escutam
com a alma pelo avesso.


CAMILA VARDARAC 
Poeta paulistana. Possui poemas e artigos sobre cinema e literatura publicados em sites da internet, revistas e jornais. Classificou-se em 3º lugar em um festival de música e literatura da USP e foi finalista da 15ª edição do Prêmio Nascente. Publicou o livro Pleno Deserto, em 2009. CAMILA VARDARAC está 60ª postagem da serie AS MULHERES POETAS...Se quiser ler mais, clique no link http://www.rubensjardim.com/blog.php?idb=44535

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O silêncio é a recusa

O silêncio é a recusa


a loucura

é o confronto

de todas as vozes



o silêncio

é a recusa

que mais desafia



a luz momentânea

do que se anula

é o que vive



enquanto o excesso

é a explícita noite


que tudo apaga. 
buenos aires
hora zero
piazzolla,
o que faz aí?
tá certo, têm algumas estrelas cadentes
mas...
o palco não combina melhor com os teus sapatos?
diga-me, piazzolla
quantas unhas são necessárias para arranhar o pescoço de um tango aflito?
o teu bandoneon exala fervor
e o fervor habita o céu e o inferno
cabe nas preces e nas súplicas
dos anjos barrocos em chamas
piazzolla!?
está rasgando tangos com os demônios celestes?
está deflorando notas com os pupilos de lúcifer?
ao menor indício do teu som
libertinos viram seres alados
e os providos de asas sucumbem ao centro da terra
um brinde aos que te escutam
com a alma pelo avesso.


Camila Vardarac
Tutanos escorrem das paredes
e sobre a bancada
nasce uma poça de plasma
que, por alguns instantes,
esquenta o metal

Depois de analisados
por facas raio-x
os bois de carbono,
como negativos no laboratório,
pingam


Terminado o serviço, o açougueiro encosta-se na parte menos suja dos azulejos, de trás da orelha direita saca um bàli-hài de canela e, com as mãos trêmulas pela indelicadeza da rotina, acende o cigarro.

Do avental imundo tira o papel amassado e a caneta bic azul, com a qual põe-se a escrever palavras carnais marcadas com a digital púrpura da morte e do amor. Por fim, uma assinatura pactual seria mero detalhe.

Camila Vardarac 
http://cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=3918

O pássaro abstrato


Tem um olho em cada asa, o estômago colado às costas e nos pulmões bicos abertos que entoam a fome. essa fome não é exata, por isso, insaciável. qualquer tentativa de entender a sua causa - é inútil - o real manifestar-se contra a vociferação do intangível com duas mãos significantes, entre os dez dedos facilmente escapa o obscuro eco. 

Camila Vardarac

Quando ressus- citas o poeta morto



 cotovelos sobre cacos de vidro retém as palavras enquanto o sangue foge, desenho as letras do seu nome dentro do coração transformado em origami de caveira. sim, a lucidez é tão impossível quanto o silêncio e paixão sem êxtase ou morte é como estar entre os vivos num enterro: a neutralidade - existe quando ressus-citas o poeta morto para assassinar o que em ti nasce sem permissão

Camila Vardarac

Tivesse ido com o passaredo


Falo do esquecimento porque a eternidade é uma casa vazia e não me apetece habitá-la. por muito tempo meus dias foram infinitos até que, acompanhando com os olhos o trajeto dos pássaros, ouvi um disparo ao fundo, um disparate do destino do outro lado da parede, alguém morreu e achei tão fascinante que não consegui escrever sobre isso sem morrer também. antes tivesse ido com o passaredo, passaria menos mal, embora o céu mais próximo. minha condição é tão humana quanto meus pés no chão, terrível, nas subdivisões do cérebro meus pensamentos criam esquemas ilícitos, de fuga

Camila Vardarac


 As bocas que o silêncio move


Quem caminha sozinho

aprende a língua impronunciável

pacto entre o eu e suas variantes

inúmeras, as bocas que o silêncio move.


 Camila Vardarac

Pedindo leite ao Cristo morto

Noite dos anônimos que escrevem cartas para destinatários inespecíficos. Tática do livre abandono - improvisação das palavras, imprevisibilidade dos rumos, linhas inacabadas em minhas mãos, sinais do destino que posso burlar quando a voz radiofônica disser a hora exata do disparo ou do salto ou do corte mais profundo do que a pergunta, as respostas foram desmembradas pelos filósofos que suavam os papéis em branco e acordavam de madrugada pedindo leite ao Cristo morto. Insaciáveis e desesperados todos os que percorrem os caminhos do saber, onde os espelhos projetam as saídas, as portas abrem para dentro.



Camila Vardarac


Dois seres pálidos apagam suas sombras ao abandonarem as réstias de luz, seguem fracos e rastejantes como moribundos esperançosos na direção da escuridão plena, porque só no mais puro breu nasce a semente vital que alimenta os seus espíritos, semente que abre as cortinas da alma, fechadas durante a temporada do sol.


Dos habitantes diurnos só querem o sangue contaminado que corre pelos corpos debilitados, aliás, esses seres obscuros valorizam muito mais o sangue por não possuí-lo naturalmente, é preciso consegui-lo a partir dos homicídios (nem sempre premeditados), assaltos a hospitais ou contribuições dos suicidas, que estão cada vez mais raras visto que esses kamikazes de hoje só querem mesmo morrer sem dor, uma morte calada num cômodo de apartamento impenetrável.


Antigamente, corria nas veias um sangue mais limpo, regido ainda por algumas ordens naturais, sem tanta química corrosiva. Antigamente, sangue era néctar e quem quisesse morrer o fazia com honra e tiro e foice, às vezes corda e o desespero avisava aos seres da noite que o banquete estava servido, agora morre-se por pílulas, analgésicos e calmantes em excesso e nenhum alarme soa aos ouvidos dos sedentos noturnos… o fim também está próximo para eles, por mais que saiam das tocas lacradas assim que o sol se põe, na cansativa busca pela vida carregada de contagem regressiva.


O fim se aproxima e o dia é apenas o prelúdio.



 Camila Vardarac

Cronologia


Cronos é um palhaço maligno viciado em anfetamina.
a velocidade da ação corrói carnes e ossos e nervos que ainda não são ligas de cobre. vivemos amparados pelas muletas da loucura enquanto a morte nos cerca os passos. ácaros da destruição, invisível terror psicológico.

A rapidez com que trocamos de máscaras diante dos espelhos dos outros, nos cega. somos reis acreditando ter poder e controle - já que estamos protegidos pelo manto quente das nossas verdades particulares - aplaudindo o bobo da corte sem sabermos que ele é o espião do tempo, encurralando-nos em armadilhas ilusionistas.

Caso o enviado das horas nos levasse para o topo de uma montanha e determinasse alguns minutos para respondermos quem somos... gastaríamos todos os minutos antes que terminássemos de contar os disfarces. seríamos, oficialmente, vítimas da sociedade do espetáculo e nossos corpos rolariam pelo abismo, caindo sobre um monte de esqueletos sem rosto.



Camila Vardarac
http://cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=3918

Limítrofe III


"A sociedade só vive de ilusões. Toda sociedade é uma espécie de sonho coletivo. Essas ilusões tornam-se perigosas quando começam a parar de iludir. O despertar desse tipo de sonho é um pesadelo." Paul Valéry


Para o solitário, a pior dor causada pelo seu isolamento ainda será mais suportável do que despir-se diante do julgamento moral-social, que impõe a ordem de fora para dentro, quando na verdade o que existe no homem é um caos intracorpóreo externando as suas vontades.

Camila Vardarac
http://cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=3918

quero um alasca artificial
com neve sintética
como gotas circulares em slow motion
sobre os corpos dos ursos
bipolares

6 meses sem sol
holofotes nos pescoços das focas submersas
iluminam como ronda policial
de tempos em tempos passando nos olhos
semi-cerrados

rave esquimó
ácidos de gelo
drinks exóticos à base de vodka
e pirimplimplim

rostinhos glaciais da sabedoria
aparecem nas janelas dos iglus neon
trocam dialetos inuktitut
e eu não compreendo coisa alguma
absolutamente sorrio
sob os efeitos dos goles indecifráveis

tem uma montanha
cujo topo mede um everest e mais umas jardas
espero uma avalanche
porque somos mesmo pinos de boliche ártico
strikes certeiros no meio de nós
tudo que do branco nasce ao branco retorna
e que da ressaca se faça a renovação
- aparentemente limpa como gelo -

Camila Vardarac .(Rio de Janeiro.1987)
http://cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=3918

o homem

o homem
nu como quem entra no banho
nu como quem chora
mira os olhos do reflexo no espelho
até que se embacem as retinas

máscaras e alter egos passam
como num filme super 8 desfocado
projetado em vidro
rachado nas quatro pontas

a realidade entra pelo ralo do banheiro
escorre pelos azulejos suados
enquanto as mãos desenham cenários
de paraíso e pandora
com sabonete e carvão

a água contaminada da torneira
cai como cascatas pelas frestas
as poças no chão
seguem a direção do rádio bem posicionado
a voz de nick cave ecoa gravemente:

` the good son
the good son
the good son `


Camila Vardarac nasceu no Rio de Janeiro, em 1987. Observadora por natureza, escritora por impulsão – pela necessidade (recorrente) de expressar-se em prosa e poesia. Voyeur da realidade e de suas representações, encontrou no cinema um meio de materializar suas idéias no continuum do espaço-tempo, desconstruindo-se em impressões.

http://cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=3918

ferro-via abandonada

ferro-via abandonada
destila caos apagado
dissolvido em verniz sem validade
existe verde, bem como oxigênio
abrindo-se em infinito
cercando a eletricidade desativada abaixo dos pés
e, apesar dos movimentos,
existe a sensação de congelamento
o tempo é cansado
aqui, nenhum relógio marca a hora certa
os sinos são gárgulas no vão das igrejas
pacto matrimonial com o silêncio
os pássaros definham diante do vago
abrindo asas sem alçar vôo
abrindo bicos sem emitir som
mudos como o nada
que habita os que dormem e não sonham.
  
Camila Vardarac nasceu no Rio de Janeiro, em 1987. Observadora por natureza, escritora por impulsão – pela necessidade (recorrente) de expressar-se em prosa e poesia. Voyeur da realidade e de suas representações, encontrou no cinema um meio de materializar suas idéias no continuum do espaço-tempo, desconstruindo-se em impressões. 



uns 67 anos em forma de homem
encostado no obstáculo de cimento na calçada
apoiado nas muletas desgastadas
a perna direita não existia
segurava um papel
acenava um papel
que ninguém via
no início fervor nos gestos dos braços
depois o cansaço com as horas passadas
e o único ânimo que cabia nos olhos
desejava as pernas dos transeuntes.

a radioatividade se espalha através da visão bloqueada.

Camila Vardarac

Por mais que chova

chove e entendemos que é preciso transcender as três etapas da lógica, burlar a lucidez e rir diante de uma arma branca o pulso nos arremessa às cartas sanguíneas, escrevemos para lembrarmo-nos, para esquecermo-nos das nossas contradições, sabemos que existimos para inexistir e não podemos deixar de sentir toda a vida que se esvai entre os dedos parturientes da loucura, nada compreendemos porque nela moldamo-nos disformes entramos no labirinto, cegos e nus tateamos as nossas faces refletem, por mais que chova, somos iluminados e corajosos, somos raios capazes de abalar o globo com a impávida tormenta que nos impulsiona ao desconhecido dentro e fora de nós brindamos, não blindamos, somos generosos e impiedosamente sinceros por respeito à imperfeição, fortificamo-nos a partir da nossa fragilidade

Camila Vardarac
eu não acredito na bondade dos anjos
todos parecem bebês de rosemary
o colorido dos vitrais não ameniza
a melancolia assustadora estampada em seus semblantes

no centro da casa
sagrada
o homem abre o livro
sagrado
e recita para si palavras pesadas
como o som de mil crucifixos arremessados ao chão

e eu penso nos pecados mais bizarros
que rondam o confessionário de vozes alteradas
depois aliviadas,
por depositarem nos ombros do representante do pai
a culpa dos seus atos impensados ou dolorosamente calculados

penso nos joelhos esfolados
por baixo das calças puídas dos fiéis fervorosos
que não sentem o gosto de ferro na boca
nem o gosto do sangue no cálice

e os sinos badalam doze vezes pausadas
ensurdecendo meus sonhos sacros
fazendo-me abrir todas as noites os olhos
quando deveriam estar fechados.

Camila Vardarac


na casa ao lado
espíritos inquietos sobem e descem escadas
como se o melhor a fazer fosse
subir e descer escadas

são 3:47
o sono das 3:00 já foi perdido
agora no ponto dos conscientes
espero a dormência dos sentidos

calem esses passos
como calaram as almas dentro da casa escura
amarrem esses pés
como fizeram com as vozes na gaiola da mordaça
tirem seus valiuns das gavetas
e entrem nas sombras dos cobertores

morfeu, acuda esta gente!
dardos com soníferos no centro das testas
areia movediça ao redor das camas
e uma injeção de sonhos mudos na espiral dos meus ouvidos.


Por Camila Vardarac em: http://vaga-lumens.blogspot.com/

I- retrocesso do ser é acreditar que tudo já foi visto, quando tudo está em constante movimento e a mutabilidade é o moinho.

II- imprimir formas fixas ao objeto é matar, naquele instante, o objeto. é romper seu elo com o mundo. mais do que um estado de animação suspensa, é um empalhamento.

III- um ato fotográfico (ou outra forma de representação) seria o último suspiro da reprodução, a última evolução, ainda que capturada com extrema semelhança.

IV- a lembrança do objeto inanimado seria mais palpável do que o próprio objeto em vida.

V- o que foi confunde-se com o que agora é. real e imaginário.

Camila Vardarac

http://www.semioticaeminimalismo.blogspot.com