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domingo, 6 de agosto de 2017

RISCOS


comecei
ao pé da folha
riz raiz relva flor
(mansa e bela!)

depois
 numa corola-amarela
pintei um beija-flor
rabisquei um sol ocre
quase clarinho
e fui atrás do azul
para realçar as nuvens
e preencher um canto
que padecia sozinho

e foi urgente
derramar um mar
e um barco à vela
escancaradamente
bela disposta em arcos

dali
em brumas
brancas e espumas
fiz um rapaz de cara sagaz
no canto esquerdo do
peito do papel

nele pus um chapéu
uma gravata laçada no
pescoço e um ar de bom
moço e recortei-lhe uma flauta
para solfejar as linhas e me fazer
uma canção naquela pauta

dó. mi. lá. ré. fá. sol.
si. si. si. si. si. e se?

arrisquei  um mi
e me tatuei lá bemol
em plena clave de sol
ao pé de ti.


lilly falcão, in 'clave.de.sol'

sexta-feira, 14 de abril de 2017


• dormitava auroras
nua em pedra
e errava
- por querência -
a cartografia
dos homens 

flertava com os mapas
das águas
e das ventanias
mais complexas 

em sua bravura
de sereia
ornava-se de brumas
de lenhos e arvoredos
onde ninhos
surgiam-lhe felpudos de sois
e lãs febris
de horizontes


desse chafurdar no limbo
logrou despir-se de gente
- seiva-arrebol! -
sabia-se plâncton
basalto, âmbar
e cinzas 

então assombrou-se
em fogo e quase lava
escorreu-se ávida
peregrinando
oceanos 

: adejou-se rubra
[ flor-mamífera-ave!]
a burilar o magma
onde a vida
goza •

/ do.rubro.magma.das.ovelhas /


{ Lilly Falcão }

domingo, 12 de fevereiro de 2017

• dormitava auroras
nua em pedra
e errava
- por querência -
a cartografia
dos homens


flertava com os mapas
das águas
e das ventanias
mais complexas


em sua bravura
de sereia
ornava-se de brumas
de lenhos e arvoredos
onde ninhos
surgiam-lhe felpudos de sois
e lãs febris
de horizontes


desse chafurdar no limbo
logrou despir-se de gente
- seiva-arrebol! -
sabia-se plâncton
basalto, âmbar
e cinzas


então assombrou-se
em fogo e quase lava
escorreu-se ávida
peregrinando
oceanos


: adejou-se rubra
[ flor-mamífera-ave!]
a burilar o magma
onde a vida
goza •

lilly falcão

/ do.rubro.magma.das.ovelhas /

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Sofria de falta de importância.
Um dia, acometida de crise aguda, tomou um cafezinho num boteco e sumiu.
Anos depois, um poeta pós-moderno a encontrou e a levou para tomar ar e sol.
Curada da desimportância, ela agora sorria e aplaudia ao ouvir rimbaud
e baudelaire.

E o poeta jamais lhe disse que a encontrara morta, toda encolhida, misturada
com restos de açúcar demerara, dentro de um mísero sachê antigo de bar.


Lilly  Falcão

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Canto Incidental


zunidos urros bramidos
frêmitos em códigos
acendem o olhar insaciável
e delinquem os sentidos

luxúria à flor da pele
incêndio de pássaros
debulhando a vagem do dia
carnear ávido de sembantes
miragem e vertigem
rarefeitos no pó
do magma

fogo e mistério
encantamento e incerteza
plumagens e flechas retesadas
frágeis e finas máscaras de ascetas
escondem a volúpia do vulcão
em um canto incidental
de cisnes negros
entre o vento
e a morte
súbita ::





[lilly.facão/ 'canto.incidental']


Ode à distância


tu aves em meu peito
feito gorjeio de imaculada
sinfonia

à raiz dessa canção planto sorrisos
ramificam-se meus braços
arvorifico-me

a distância das estrelas
no horizonte caligrafa sonhos de praia
[o fogo areja virtudes nas costas da noite!]

em meu redor, pirilampeias manso
quanto mais breu, mais
te alcanço 





[lilly falcão:: 'ode.à.distância'}



terça-feira, 21 de agosto de 2012


Cantiga Ocre Demerara


Sofria de falta de importância.
Um dia, acometida de crise aguda, tomou um cafezinho num boteco e sumiu.
Anos depois, um poeta pós-moderno a encontrou e a levou para tomar ar e sol.
Curada da desimportância, ela agora sorria e aplaudia ao ouvir rimbaud
e baudelaire.

E o poeta jamais lhe disse que a encontrara morta, toda encolhida, misturada
com restos de açúcar demerara, dentro de um mísero sachê antigo de bar.





Lilly  Falcão


« seis em ponto
 os lírios
- nem todos! -
em seu canto
benzem as horas
de branco


[a noite medra estrelas
 e reacende os anseios
da imensidão
 no mundo dos homens]


nessa réstia do dia
compete às flores
e às sombras
a tarefa de vigias


: porque viver
- reza a sabedoria -
nunca foi ofício de santos »

  

{lilly falcão/ 'de.lírios&sombras'}