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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

- pai, qual o nosso sistema político?
- morotocracia, filho.
- você diz meritocracia?
- não, morotocracia mesmo, governo todo do moro!
- ah, sei... e a divisão dos poderes, pai?
- filho, anota aí: legislativo comprado, judiciário acovardado e executivo safado!
- minha professora de história vai me dar 10?
- não, filho, mas relaxa: sua professora tá na rua, não existe mais essa matéria.

Marcílio Godoi

sábado, 8 de agosto de 2015

Dia dos pais


em meio a entregas importantes,
fui ver meu pai, velhinho;
ao cabo de meus sem-tempos,
fui ver o velho;
no difícil do caminho,
visitar o patriarca.
em lá chegando, ele sorriu,
me deu o seu abraço
de passarinho
e despejou em meu colo a arca
de suas incontáveis histórias,
em silêncios, suspiros,
obrigado, obrigado.
em meio a entregas importantes
entreguei-me todo um pouquinho
e não levou muito tempo pra notar
que fora ele quem viera,
lá do meio do rio
da barca dos tempos idos,
a entrega mais importante me confiar.

(marcílio_godoi)

domingo, 26 de julho de 2015

escalada do ódio

escalada do ódio
e eis que nos chega o dia
em que surge aquele cheiro
de esgoto e o presságio
de algo bem morto,
tão perto, visível,
mas irrefreável.
o ódio anda solto.
avança na cara dura,
endurecendo os olhares
à plena desfaçatez.
pisa emudecendo
ignora nuances,
o ódio anda solto,
soltando fumaça.
desprezando todos passos
tão sutis e a história escrita,
o sangue ferve nas veias,
pulsa no pescoço.
o ódio anda solto
e expia o outro,
chicoteia a lógica.
avatar anti-empatia,
metamorfizado em bile
de tom roxo intolerante,
o ódio anda solto:
sopitando-nos,
espumando-nos,
gotejando-nos.
mágoa monstro adormecida,
despertada pelo medo,
o ódio ainda anda solto
sem saber de tudo
que sobe à cabeça.
mas forja motivos,
planta danações.
esmerilha a sua faca,
o ódio ainda anda solto,
desembainha o metal
frio, fratricida.
rasga indiferente
tripa e coração
estoca rancores.
o ódio ainda anda solto,
vedou o respiradouro.
conclamou todos pra festa
e abriu o seu gás.
perguntam do amor.
vai bem dentro aqui,
mas já não respira.


(marcílio_godoi)

domingo, 5 de julho de 2015

walkman


lembro-me tão bem dessa canção.
eu a escutava tantas vezes,
cheguei a fazer fita cassete
inteira só com ela, os dois lados,
e não precisava gastar pilha
do meu walkman para voltar.
pensava numa certa garota
dela vinham-me sonhos, figuras
que experimento agora outra vez.
curioso é que não mais recordo
exato qual garota seria,
mas a sensação permaneceu.
talvez amasse o amor, antes dela
o que do mundo vinha e ficava
gravitando a órbita singela
que girava nos olhos magnéticos
de meu aparelho na cintura,
que, inexplicável, ainda dura.


(marcílio_godoi)

terça-feira, 31 de março de 2015

orfanato


ser órfão é mais do que se privar de pai e mãe. ser órfão, órfão de pai e mãe, de repente, é deixar de ser filho. ou filha. isso pode parecer pouco, mas, quando, num só golpe, os corações amorosos de ex-filhos se veem assim, subitamente "desfiliados" da vida, vem uma sensação estranha. um grande susto.
é um susto que não passa rápido e, frequentemente, essas criaturas, filiais sem matrizes, vagam feito zumbis ou cometas pelo mundo, sem saber direito onde recolocar o filho amado nelas, de volta ao mundo, na órbita em que todos gravitamos, o amor.
a terra redonda, no entanto, nos ensina que a resposta está bem perto de nós mesmo, em nós mesmos, herdeiros legítimos desse sentimento difuso que, de uma hora para outra, passou a rondar sem dono o nosso peito, no vácuo mais triste do universo.
a terra nos diz que apenas uma imensa roda de perdão e de alegria poderá re-abrigar esse amor jogado no chão do orfanato. nessa roda cabem todos os filhos-não-mais-filhos, os netos-não-mais-netos, os bisnetos-não-mais-bisnetos, as noras-não-mais-noras, os genros-não-mais-genros, os amigos queridos, essa condição eterna.
quanto maior, mais firme e mais unida for essa roda, mais chance teremos de prosseguir em paz na busca do sonho para o qual nascemos todos: sermos eternamente considerados, por nós mesmos, filhos legítimos do Criador.

(marcílio godoi)

terça-feira, 17 de março de 2015

aldeia


corvos pretos vestidos de automóvel
ratos letrados analfabetizados
esse é o país em que vivo
o que me habita é bem outro.
cadáveres dissecados na rua
turba de tigres animados em ódio
esse é o país em que vivo
o que me habita é bem outro.
rios tornados marginais de estrume
nascentes mortas por especulação
esse é o país em que vivo
o que me habita é bem outro.
mil risos de porcos comendo fezes
pastores de mil orgias consagradas
esse é o país em que vivo
o que me habita é bem outro.
os meninos batizados de pólvora,
os velhos armados com grandes mentiras
esse é o país em que vivo
o que me habita é bem outro.
homens comprando os homens comprazentes
sacos plásticos pra indisposição
esse é o país em que vivo
o que me habita é bem outro.

(marcílio godoi)