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sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Relíquia



Era de minha mãe: é um pobre xale,
que tem p’ra mim uma carícia de asa.
Vou-lhe pedir ainda que me fale
da que ele agasalhou em nossa casa.

Na sua trama, já puída e lassa,
deixo os meus dedos p’ra senti-la ainda;
e Ela vem, é Ela que me abraça,
fala de coisas que a saudade alinda.

É a minha mãe mais perto, mais pertinho,
que eu sinto quando toco o velho xale,
que guarda não sei quê do seu carinho.

E quando a vida mais me dói, no escuro,
sinto ao tocá-la como alguém que embale
e beije a minha sede de amor puro.


António Patrício

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Último poema


Dos olhos que a saudade impõe
foge a vida,
o tempo não se transforma,
faz-se vazio.
Fica o olhar raso,
baço,
sem profundidade,
como se todas as liquidas vidas secassem
de uma vez... vagarosamente.
Está o coração morto e ainda pulsa;
Veias abertas,
e do sangue resta a dor
que não se sente na carne
mas te salga as feridas rasgadas
na fragilidade dos dias.
Ainda que com o dorso arqueado
ao peso do silêncio...
permaneces entre os vivos.

António Patrício Pereira

segunda-feira, 14 de março de 2016

Um dia


(post-scriptum XLVI)

Um dia mudo-me
para a pátria do silêncio;
Por agora
vou adormecendo
ao ritmo
da mudança das estações.

António Patrício Pereira


domingo, 17 de janeiro de 2016

A tinta permanente
Ainda tenho tempo para viver
como se pintasse um poema inteiro
no meu corpo, tela que envelhece
esquecida na idade amadurecida das horas.
Já não risco exactidões
com a ponta melancólica dos dedos;
Vou, agora, delineando o contorno dos dias
a tinta permanente
com que escrevo palavras murmuradas
em labirínticas páginas
que morreram imóveis
como o coração dos desiludidos.
E quando a noite chegar
serei subtil transparência nos dias de ninguém.
De mim só o pó que o vento levará.


António Patrício