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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A UVA


(Marco Cremasco)

tome a uva vasculhe-a

ouça o seu sussurro
o que ela quer? deseja?

(vinho ou sobremesa?)

deixe-a à mercê dos lábios
não lhes permita que entumeçam

na voracidade em devorá-la
recomponha-se enamore-se

traga-a entre os dentes
toque-a mordisque-a

umedece-a, primeiro, com a saliva
depois com a lágrima insana

que a tudo corrói e
consome na explosão

que não cabe no corpo
sim no abrigo da uva

para transformar o que era uva
em sumo

e do sumo o gozo do universo
na derradeira herança


de uma videira

segunda-feira, 20 de maio de 2013

DOMINGO




hoje é sábado
amanhã serei:

o pão a manteiga
o chá na chaleira

da erva, a cidreira

a roupa espalhada
pela casa inteira

o ócio dos ocupados
o cio dos desesperados

serei notícia de jornal
jogo de futebol

o caderno cultural...

a fome a miséria
a escória

o clamor por misericórdia

o contrário das horas
que me acorda:

hoje é domingo
e no domingo

não quero chorar

(Marco Cremasco)

domingo, 27 de janeiro de 2013

BREVE




(para os filhos e filhas de Santa Maria)

não tem essa de pressa agora
pode-se passar dessa pra melhor
e deixar o pior por fazer

o rio banha o peixe
o céu levita a asa
o que passa
não disfarça:

mostra a face
e o rosto da faca
num corte seco e rápido
pondo pano final ao teatro

tudo o que aqui acontece
pouco depois desaparece
na fração do beijo celeste

e quando brilha uma estrela
nasce o que é para ser nato
fenece o que é para ser finito

indo da fonte à correnteza
e desta ao fim com a certeza
que o mais breve dos dias
foi o mais intenso de uma vida

(Marco Cremasco)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

RENDAS





(Marco Cremasco)

sou a mulher
de mãos calejadas
trago nos dedos
estrelas e desejos

nesta vida rendeira
de idas e vindas
teço trevos e corrupios
de pontos invisíveis

tenho no olhar um laço
alinhavo ligeiro
no meio das nuvens
que tramam o sol

resgato no seio d’alma
a calma de um tesouro
oculto nos olhos turvos
dessa artesã sem repouso

então tateio bilros
- restos de sonhos -
que me fazem rendar
sem nunca me cansar

obs: para as rendeiras e rendeiros (de palavras e de olhares).