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sexta-feira, 27 de setembro de 2019

RETRATO DE UMA ALMA



Alceu Natali

Sempre tenho ideias, coisas para dizer, para escrever, fatos que incomodam-me enquanto não conversar com eles, sentimentos imprecisos que inquietam-me enquanto não tentar entende-los. Para lidar com essas impressões, concretas e abstratas, reais e imaginárias, preciso de ajuda, ajuda de algo que sensibilize a alma, que a alimente com lágrimas emotivas e incensuráveis. Quando procuro ajuda, impaciento-me para encontrá-la mas, quando menos espero, ela desponta, cantando para mim sem saber que veio socorrer-me, acreditando ter encontrado alguém que a ouça com os ouvidos da alma. Então digo o que tenho para dizer e o som numinoso alegra-se com nossa empatia, mas ainda pede-me uma imagem que registre para sempre este encontro mágico, entre o pensamento e a voz do princípio vital. A feição da alma muda a cada milionésimo de segundo e é impossível captar o exato e raro momento em que ela sincroniza o elemento psicóide da natureza com a transcendência da reflexão humana. Lembro-me de uma vez quando sonhei que eu era um pintor e me pediram para explicar o sorriso de Monalisa. Eu falei com desenvoltura por meia hora, esgotei todos os meus conhecimentos sobre técnicas de pintura e conclui que não sabia dizer de onde veio aquele sorriso da Gioconda. Os que indagaram-me, explicaram-me que o sorriso dela partiu do coração, antes que o cérebro recebesse qualquer estímulo. Por isso, deixo estas imagens surgirem ao acaso, e elas aparecem, supostamente indiferentes, mas já produzidas com propósitos definidos e perdidos, um dos quais sempre vem ao encontro de minhas necessidades antes mesmo que elas tenham nascidas. Há pouco tempo, tive uma sensação incomum. Apareceu diante de mim o retrato de uma alma pedindo-me para explicar-lhe que devaneios divinos e que cânticos angelicais registraram sua imagem. Minha querida, eu te chamo de querida porque a alma é feminina, enquanto o corpo é masculino, e a mente, que une os dois, é a sizígia, ou a própria anima que é a interlocutora entre a psique e seu centro regulador que chamamos de Deus. Minha querida, eu gostaria de ser puro, como o branco, mas não sou, e, se você acha que tenho alguma inclinação à alvura, não se engane, pois sou um ser ambivalente e o que você vê em mim é o positivo do retrato de minha alma, mas negativamente carregada de todas as misérias humanas resgatadas de volta a uma caixa de Pandora, e recomposta de todas as cores do espectro devolvidas à sua fonte original através do mesmo prisma que as separaram, transformando-me no enganoso vazio total e neutro da cor que não representa apenas a ausência de cores ou a soma de todas elas, mas também uma contraposição ao nada que é gelado, escuro e assustadora e desproporcionalmente maior do que o insignificante todo para o homem, essas pedrinhas luminosas e solitárias que salpicam o breu sem-fim. Se eu me desvio para o branco, não é porque eu sou puro, pois nem mesmo meus terapeutas tiveram acesso ao meu lado sombrio, e nem porque sou um pacifista por convicção, mas por conveniência, pois minha apologia a não violência é apenas um simulacro para camuflar meu medo, daí o fato de minha face, às vezes, parecer estar pálida de sobressaltos. Na verdade, eu sou um medroso e sempre amarelo, mas sem as rédeas curtas de minha fobia social e de meu acanhamento, posso transformar-me numa fera indomável, como a matiz áurea que rechaça todo tipo de atenuação e transborda da tela onde o pintor tenta enclausurá-la com outras nuanças. Mas você é sublime, mais alva que o branco supremo, por isso muda de cor, como o negro do ébano que parece azul de tão negro. E você é como o branco do marfim que parece rosáceo de tão branco. Quem te fotografou, imaginou a vida como ela deveria ser hoje, e sua imagem deve ter sido captada ao som do que os cientistas chamam de big bang, quando o universo foi gerado, e as predisposições para cria-lo não são dos mesmos que tiveram a ideia de inventar Deus, antecipando que ele seria uma explicação plausível para este momento singular de sua alma.

20 de abril de 2011 15:18


INEXORABILIDADE



Alceu Natali

Eu já nasci assustado, recapitulando fragmentos de sonhos bizarros, com estigmas congênitos, sem a mínima noção de que um dia iria acabar dando errado. Não pretendia ser o que Deus não queria que eu não fosse, nem atinava para o que o simples fluir da vida escancara. E disse George que ela segue fluindo dentro de mim e sem mim. E disse Lilian que, ao passar por mim, ela fecundou-me com medo. Um elemento que quintessenciou meu espírito inseguro. Eu tenho medo da água agitada do mar, da terra alheia com frutos para roubar, do fogo da vela se apagar e do terror noturno que sufoca o ar. Por que abandonaram-me por um velório à noite e sem nenhuma luz para guiar-me na escuridão habitada por ventos uivantes? Num raro momento em que o temor descuidou-se de mim, eu ceifei a visão que não pertencia-me e carreguei uma culpa que só dissipou-se com outra. Por que no calor de uma festa de carnaval escolheram-me para ser assombrado com uma máscara tão horrenda? O salto que todos nós estamos condenados a dar da luz para o umbral, misteriosamente, levou embora de minhas lembranças uma parte de minha maternidade. Um enigmático portal entre este e o outro mundo levou-a daqui para sempre. Não espanta-me mais aquele prato de comida espatifado contra o chão da cozinha, mas intriga-me, ainda, aquele coelho branco enforcado na maçaneta da porta que frequentou minhas fantasias tantas vezes. Eu corro atrás da vida. Corro para salvar uma vida em minha vida. Mas é ela que leva-me e agarro-me ao primeiro tronco que flutua neste rio que eu sei que vai desembocar no mar. Saio pelos afluentes, dou cabeçadas nas suas margens e volto à correnteza mais forte sempre um pouco mais fraco. Olho-me no espelho e vejo a morte pela primeira vez. Ela é companheira do meu pavor e rouba-me tudo o que Deus desejava que eu fosse. O demônio oferece-me ajuda e os anjos que sempre pressenti observam à distância. Vou morrer sossegado, mergulhado na profusão de meus sonhos preciosos, mas com a marca do arrependimento, com a nítida impressão de que tudo o que fiz de errado não pode mais ser consertado. Pretendo ser tudo aquilo que satanás disse-me não ser proibido, dando mais atenção à imobilidade das trevas. E disse John que minha vida foi tudo aquilo que passou enquanto eu fazia planos para ela. E disse Lilian que, ao passar por ela, deixei de cultivar os campos. Um de Vênus e outro de Marte, sem deixar que florasse o que Deus plantou. Perdi o medo da natureza animada e inerte, dos homens a sete palmos e de dedos engatilhados, de morrer e de matar. Por que confundiram-me com uma convenção do cotidiano à revelia esperando que eu soubesse quais portas abrem-se para o equilíbrio dos normais? Na minha ingênua irresponsabilidade eu desperdicei todas as oportunidades que foram-me oferecidas e sobrecarreguei incautos com uma perda atrás da outra. Por que no embalo de minha ambição ofusquei a visão da simplicidade da vida com tantas máscaras perecíveis? Um tenebroso abismo separa-me das melhores lembranças abandonadas pela minha paternidade. Um inexorável ímpeto prende-me entre dois mundos. Mais vale para mim uma mentira deslavada que sai de minha boca desprevenida, mas não entendo porque esta vontade de viver perigosamente continua perseguindo-me por tanto tempo. A morte corre atrás de mim. Corre para arrebatar a última centelha de vida dentro de mim. É a morte que agora impulsiona-me e sou arrastado a cada lembrança de fracassos que frequentam meu sono nestas águas turbulentas que não sei onde vão dar. Afluem agonias para minha mente onírica, meu ser vígil sufoca-se com as sequelas de seus sofrimentos e sou empurrado cada vez mais para o fundo, cada vez mais distante da superfície. Olho através de meus olhos e vejo minha alma pela primeira vez. Ela ainda caminha ao lado do meu corpo, mas já desarmonizam-se os dois, contrariando os planos divinos. O demônio oferece-me um preço por ambos e os anjos acercam-se para fazerem seus lances.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

ESPÍRITO POR UM DAIMON

Alceu Natali      


O espírito cábula que não se manifesta nem a cada lua azul.

Joga só com o nome e pelo nome não atende quando invocado no reduto do seu suplicante ou em estância forânea.

Tem ojeriza draculiana da luz do dia que desce com o fogo do sol e derrete o orvalho da terra

que não se debela com a água da chuva e só bruxuleia com o sopro do ar.

O espírito psicóide que vem do nada e vem do azul.

Sintoniza um sincrônico e, sem ser chamado, a ele se reapresenta para onde quer que seu refúgio tenha se mudado.

Colhe fôlego do ar e nele se camufla quando desce à terra,

esgueirando-se pela água que não molha e pelo fogo que não queima.

O espírito desarmado que não traz inimigo e também não põe azul sobre azul.

Fala com os olhos e pela mente se expressa em sonho, mas adormece os sentidos na vigília.

Renova suas feições da terra e confunde como fogo amigo.

Testemunha a água de lágrimas assustadas e o ar gentilmente abanado pelas preces murmuradas.

O espírito anacrônico que não deixa seu nome entrar num livro azul e o abandona numa lápide.

Zela pelos que ficaram e dele não se sabe o que se espera, mas a ele mais se pede do que se tem para dar.

Materializa-se como vapor de água que não pode ser bebida pela terra.

Desaparece como o fogo da vela que se extingue com o aroma de incenso que esteriliza o ar.