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domingo, 30 de setembro de 2018


Se esta rua, se esta rua, fosse minha...Avenida Paulista, pura inspiração! Um casal caminha no mesmo ritmo, marcando com suas bengalas o tempo mínimo entre um passo e outro. Meu olhar os acompanha até chegarem perto do metrô Trianom. Um senhorzinho dança e canta sozinho com improvisos de arte circense. Um casal de namorados briga no meio da rua, demoro para notar que fazem teatro.Um andarilho se diverte com bolhas de sabão no meio das crianças. Os pais acompanham de perto e parecem não ter medo. "Ele é do bem", uma mãe comenta. Na foto, o casal de dançarinos pede, no cartaz: ajude-nos a casar. A Avenida Paulista é um livro de crônicas aberto. Obrigada, minha filha, Nanci Kirinus! Registrar cada momento de São Paulo, na tua companhia, valem mil pedrinhas de brilhantes.
Gk

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Lavra Palavra

A letra, a sílaba e nem a palavra ficará alinhada, enfileirada, assim como sempre foi. Puxaremos o tapete do texto com todos seus elementos, para que seus (des)pedaços rolem pelo branco do papel. E depois, com o olhar renovado, juntaremos seus cacos para investir numa nova criação.
Não é assim que acontece com a vida, com a biologia, com nossas planícies aéreas, terrestres e marítimas?
 Palavras quietas, em plácido sossego? Só depois de serem mexidas e reinventadas. Só depois de dançarem uma bela quadrilha no salão. Só depois da descoberta dos seus novos prismas compondo novo sentido, imagem, sonoridade.
Venha participar deste trajeto entre caos e cosmos, com intenção estética, ou melhor, com intenção cosmética.


Gloria Kirinus

sábado, 30 de janeiro de 2016

Ariano Suassuna, na abertura do XIII Fórum do Imaginário (Recife), começou seu discurso de maneira informal, sem nenhum tom de cátedra e sem nenhuma gravidade ou impostação de voz.
Discurso de primeira, em primeira pessoa, concluindo com a declamação de um longo poema de Fernando Pessoa. Perdi toda a concentração ao ponto de não lembrar o poema declamado, acreditem, no meu caso, isso é grave.
Fiquei distraída nos muitos Arianos Suassunas que a sombra projetava na parede. Claro, os anéis do imaginário me levaram perto de Saturno e outros planetas.
Uma interrupção de energia elétrica permitiu que as velas tomassem conta da plateia, num crescendo pra lá de aumentativo.
Primeiro vi uma sombra dele fazendo gestos contrários ao Suassuna real. Depois vi dois, três, quatro, quarenta Suassunas, com oitenta braços subindo e descendo, abraçando e desabraçando o nada e o tudo, diante de um público absorto, paralisado pelo espetáculo em 3D, sem direito a óculos escuros.
Eu, no meu canto, pensei entre as sombras: com este homem quero casar. Depois lembrei – mas eu já sou casada – a luz das velas bachelardianas distorce os pensamentos e retorce os sentimentos.
Poesia não dialoga óbvios. E para ver melhor, por vezes, é preciso que a luz artificial fique desligada. Ariano Suassuna foi desligado da vida de luzes artificiais. Hoje, hologramas dançam multiplicados no meio de outra plateia que repete seu nome e seus gestos. Abraços e desabraços que sobem e descem eternizam seu nome, e de certa maneira, muitos casamos com ele.

Glória Kirinus

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Deixemos a
pá de lado e
toda lavra
em repouso.

No desenho,
bem no centro,
da palavra,

PA U SA 

há uma letra
suspensa
livrando de
ataduras
seus extremos:

 U

Embarquemos
nesse balanço
de criança
para brincar
de leveza

dialogando
bem-me-quer
bem-maior
com cataventos.




Gloria Kirinus .2008

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

E chegou a palavra “nascimento” embalada em papel presépio. Ninho, embrulho, aconchego, qualquer palavra que reúna (essencialmente )pede passagem prioritária , pelo portal dos genuínos afetos. Feliz Natal , meus queridos amigos de perto e de longe, Feliz Natal, meus leitores de tantos cantos, Feliz Natal, para quem tenho pertinho de mim e Feliz Natal para quem está longe e o sinto tão perto. Família de lá e daqui , que a nova Luz abasteça nossa grande constelação.
Gloria Kirinus

sexta-feira, 13 de novembro de 2015


Não poesia. Você não foi convidada hoje. Por favor, me abandone, que preciso resolver coisas que me exigem diligência prática e funcional. Vai lá cuidar da sua vida!

Se algo falta para a poesia é o senso de oportunidade. Ela aparece quando bem quer, inquieta, impertinente, inconveniente e não sossega até que a congelo em algumas estrofes.

Gloria Kirinus

domingo, 5 de julho de 2015

Alguém já reparou como doi a feiura, a falta de cor e de alegria dessas vans, kombis, que transportam as crianças para as escolas? Janelas tão pequenas, geralmente em tons muito escuros que na neblina de Curitiba desaparecem; alguém reparou nessa tristeza? Sei que amanhã teremos uma exposição chamada "Traços Curitibanos" no Museu Metropolitano de Arte e Cultura. Artistas da cidade mostrando arte e talento... Então, fica fácil adivinhar onde quero chegar?
E se por algum decreto municipal, estadual, federal, todo transporte de crianças fosse uma obra de arte ambulante? Já vi algo muito bonito, nesse sentido, no tempo da "Caravana da Poesia" da Secretaria da Educação de Curitiba. Que alegria subir naquele ônibus com motivos de Vinicius de Morais ( Márcia Széliga) rumo a diferentes cidades, levando literatura. A cada ano mudava o autor e o tema. Ideia que aterriza na minha cabeça é para ser jogada ao mundo.Tomara que um dia eu veja transporte escolar feito pássaro, catavento ou borboleta poetizando a dureza do asfalto.


Glória Kirinus

sábado, 4 de abril de 2015


Ahhhh, eu não resisto, cada vez que encontro uma perdida, na rua, com a maior delicadeza abro um espaço no meu bolso ou na minha bolsa e é pra lá que vai meu pequeno tesouro. Claro, junto moedas de rua também... e não são poucas. Hoje, o dia ainda dorme e eu com mil coisas para fazer, encontrei uma e outra entre meus guardados e arrumações.Somente então, súbita constatação, me deparei com indelicadeza maior, enorme, do tamanho do mundo: não sei seu nome em português. Para quem me conhece, sabe que sou escritora e ministro uma oficina palavreira há muito tempo. Então, a culpa é maior, como deixei escapar o nome deste anel das ruas, desta estrela do chão, deste desenho de aço? Em espanhol seu nome é "tuerca" (meu irmão Carlos Alberto Valdivia Galvez tem um quarto cheio delas e certamente quando vejo uma, na rua, recolho "tuercas" e saudade)
Alguém me falou que seu nome é porca. Não, não acreditei nisso. Porca é a mulher do porco. Alguém sabe seu nome verdadeiro? As coisas precisam ter nome para existir e eu não quero terminar o dia com esta dívida.
Bom dia meus queridos leitores, amigos daqui e de lá, que sempre ampliam meu vocabulário e minhas metáforas, em diferentes línguas.

Gloria Kirinus

domingo, 4 de janeiro de 2015

Nossos pés sabem mais longe...Deve ser a vigésima vez que me acontece algo inusitado, quando permito que meus pés guiem e programem meu caminho, assim, totalmente sem comando, livres, soltos e alegres, sem hora para voltar. Nesta ocasião, na praia de Itapoá, meus pés me levaram até o Mercado Barrão, despropositadamente, mesmo porque nem levei dinheiro para comprar algo. É ali que descobri uma mina de bons livros para empréstimo para os leitores da hora, digo, da melhor hora, porque praia e leitura combinam muito bem.

Glória kirinus 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Amanheci com toda a intenção de ser trilho de trem - linear, organizada, dando conta de cada minuto programado - Súbito, meu dia pegou delírio e me desgovernei como folha de árvore no meio do vendaval. Meu poeta Manoel de Barros morreu sem eu ter consciência de sua mortalidade. Precisarei de mil bocas de bárbaros para encostar meus ouvidos e sentir o rumor de sua poesia, como se concha acústica fosse. Alinho, organizo e dou conta de cada um dos seus livros, na minha biblioteca. Atividades prosaicas e prazos finais para entrega de originais, que esperem...Hoje o poeta dedilha o sotaque do além e nós mortais integramos um entresonhado coral.

Glória Kirinus.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014



Dez reais não é muito dinheiro, eu sei. A nota vermelhinha estava lá, no meio de um encruzilhamento bem transitado de São Paulo, onde os carros rodopiavam em muitas direções. Já do outro lado da rua fiquei observando a dança dos dez reais entre pneus, pneumas e pensamentos. Ventava forte e eu esperei mais espectadores para aplaudir em grupo a dança inusitada. Ninguém olhava pra isso, ninguém... Quem sabe o vento a leve até a janela de alguém que está precisando, pensei. Meus pés sempre procuram dançar e foi bem ali, no meio dos meus sapatos que a nota foi parar. Obrigada, bons ventos de São Paulo. A nota de dez reais está aqui, comigo, nem vou gastar, que fique como talismã dos bons dias com suas surpresas a tiracolo. Bom dia queridos leitores, amigos, parentes de perto e de longe.

Gloria Kirinus

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Bêbado como um barco, o desconhecido da rua me chamou de "mademoiselle" e perguntou meu nome. Confusa, respondi imediatamente: Camerata. Depois, lembrei do "mademoiselle" e acrescentei: Camerata Antiqua. Pronto, respondi nome e sobrenome. O barco, digo o bêbado, ficou confuso. E antes que ele ficasse lúcido eu retomei meu rumo. Ainda o ouvi murmurar: Camerata Antiqua...
É possível ficar bêbada de palavras?
Por que inventei esse nome?
Coisas de Paris ou isso é arte? Ou talvez faço parte de regência desinventada? Será que meus amigos e família que entendem e vivem a música poderiam me explicar? Ou talvez os amigos magos das palavras ou mesmo os lúcidos amigos lacanianos...?
Glória Kirinus

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Mal se despede maio, conforme sua natureza, com um desmaio, junho já anuncia seu nascimento geminiano no calendário e na vida. Gosto de arrancar a folhinha do mês que termina e me deparar com a promessa do mês seguinte. Uma consciência de dias com suas noites e auroras organiza meus subjetivos. Sim, porque meus objetivos, sempre tão distraídos, atingem o nada e o tudo ao mesmo tempo. Estou confusa? Deixa pra lá, os fusos estão aí para regular o tempo. Os temperos, ah os temperos deixem comigo e com as vozes que carrego desde bem antes do meu nascimento...Entre Dezembro e Janeiro muitas folhas novas inauguram nossos meses, cada um com sua novidade, promessa, susto e alegria. E muitas folhas vividas vão embora. Fica a memória, essa mãe das musas que nos eterniza e recria; essa conciliadora dos tempos passados com os presentes.

Glória Kirinus

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Não, o meu inferno não é outro. Quem sabe o outro seja meu espelho, água movente que me retrata.Devo ter sido inferno ou pesadelo de outros que me quiseram longe, no campo profissional, isso acontece com muitos. Pensar que onde cabe o amarelo, o vermelho, não pode entrar o azul deve ser sintoma grave de algo que ainda não consigo identificar. Não penso assim. O outro me amplia e ilumina. O outro me provoca, me inquieta e me faz pensar e sonhar. E me faz brigar também, como quando rebenta a onda e se refaz na sua eterna resiliência.

Constato o que penso em outras vozes, no meu semelhante das ruas, ônibus e no meu semelhante que habita minhas leituras. Abri a madrugada com o livro "Temps de Crises" de Michel Serres. Devo ter perdido muita coisa importante porque meu francês não dá conta de tudo: " Nous avions coutume, au moins en Occident, de considérer l´autre comme un rival, un adversaire, un ennemi même" (...) p 66. Depois ele fala das ciências exatas e das ciências humanas, do individual e do coletivo. E por aí vai e por aí vamos. Sei que vou reler o livro imediatamente para a saudável recomposição das minhas metáforas, nos tempos de violência no Brasil e no mundo.

Glória Kirinus

segunda-feira, 21 de abril de 2014



No sonho de Maria Luíza cabe tudo. Cabemos todos no passado , no presente, no futuro. Cabe o mistério com sua pergunta e sua resposta antes do sim, depois do não. Cabe o infinito serpenteando silêncios, cabe a esperança com estardalhaço de sinos, cabe o gato de botas, a pequena sereia, Aladim e suas lâmpadas acesas. E, mais do que tudo e mais do que todos, cabe o milagre da renovação.

Glória kirinus 

domingo, 13 de abril de 2014

Acordei com o assobio de ventos furiosos em Curitiba. Ainda no escuro lavei a madrugada e demais panos com amaciante de roupas. Tarefa feita abanando mansa no varal interno. O tempo lá fora também ficou macio com cheiro de lavanda e lavanderia. Fiquei sem desculpa para perder a caminhada de hoje.
Glória Kirinus 

sexta-feira, 21 de março de 2014

O tempo mancha meus livros e meu rosto. É assim, tirano tempo... Mas o tempo que conversa comigo (no entretempo de minhas leituras) se justifica - olhe também para o valor das marcas inscritas nas suas páginas. Sim, está certo, meus livros e meu rosto registram também inúmeros afetos.
Glória Kirinus 

terça-feira, 4 de março de 2014

Adorei! Quem fala espanhol é um poliglota natural. E quem ensina espanhol é um mestre de aspirantes a poliglotas. Com o português não é diferente. Quando aprendi que mandioca era mandioca, descobri que devo pedir na feira por "mandioquinha", assim, carinhosamente. Mas nem mandioca e nem mandioquinha, num descuido meu, ela vira aipim. Pior ainda, meia volta, volta e meia virou macaxeira...E no restaurante, quando apontei para um prato delicioso com mandioca, mandioquinha, macaxeira e aipim, o garçom sorrindo fez a inoportuna e infeliz correção: Ah, a senhora quer "vaca atolada"? Faminta, saí do restaurante sem comer nada. Ainda respeito os animais...Principalmente, os atolados que correm perigo. Hora do almoço e a fome reclama aquele prato que deixei de experimentar. Um dia ainda aprendo a ser brasileira e a não me espantar com certas expressões que só o português tem.
Glória Kirinus

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014


De cada quarto de hotel faço minha casa. Acomodo as roupas, meus potes de higiene e de beleza, cada coisa em seu lugar. A camareira deve pensar - finalmente uma hóspede organizada. Aprovo o estampado da cortina, o chuveiro, a colcha e ganho inspirações para minha casa de verdade. Minha natureza cigana sente um prazer imenso em fazer o reconhecimento da cidade nova. Levo meus olhos para o passeio da primeira vez a cada rua intensamente ruada deste Brasil que cada vez conheço melhor.
- Volte sempre! O sorriso e uma recente saudade dos atendentes do hotel me acompanha. Desde o taxi abano para eles e reconheço seus nomes. Volto, claro que eu volto para Manaus! Meu Deus, quanta promessa não cumprida... Que a eternidade de outros terrestres se encarregue de voltar. Eu mal dou conta de conhecer um novo hotel, uma nova cidade que me abastece de frutos nunca vistos e de palavras recém nascidas.

Bom dia meus queridos leitores, amigos, parentes de perto e de longe.

Gloria Kirinus

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Essas noites lindas e mornas de Curitiba me tiram do sério. Elas pedem veredas para espantar lagartos, elas pedem qualquer tipo de atenção.
- Gui Kirinus, venha ver estrelas!
- uma, duas três estrelas ...
- Ah, tia, você precisa ir a Tapera para ver o que é um céu com estrelas!
Desenho outros céus mentalmente. Meu sobrinho desenha ursas maiores e menores enquanto administra sua decepção de estrelas. Nem toda noite é completa, mas para saber disso nossos próprios olhos não são suficientes. Os olhos dos outros sempre completam e ampliam inusitada constelação. Bom dia queridos leitores, amigos, parentes de perto, de longe, e de Tapera, claro!



 Gloria Kirinus