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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Uma lavada no campo progressista


Uma lavada no campo progressista, do Uiramutã ao Chuí, da ponta do Seixas ao rio Moa: pelo que entendi, só nas capitais do Acre, do Ceará e de Sergipe os progressistas foram eleitos. Claro que há razões imediatas para isso.
(Em Santa Maria, RS, onde o candidato progressista perdeu por 233 votos, teria vencido se o PSOL (que teve 1224 no 1.o turno) o apoiasse, em vez de propor o voto nulo, como por sinal esse jovem partido propôs em todas as capitais onde ele próprio não disputava o segundo turno. Eu apoiei o PSOL no segundo turno sabendo de seus defeitos)
Mas a grande razão é simples: situações como esta em que vivemos baixam mesmo o moral. Com uma presidente do PT afastada do cargo, com uma ofensiva moral contra o principal partido de esquerda, fica difícil manter o ânimo para ir à luta.
A surra foi total, não dá para disfarçar, e todos apanharam. Não adianta um partido ou outro dizer, ah eu sou a verdadeira esquerda, ou ah eu apanhei menos que os outros. Todos apanharam.
Parar com o sectarismo seria um bom primeiro passo.
Discutir os erros do passado também seria bom, mas com uma ou duas condições: 1. não exigir de ninguém mais do que seria humanamente possível; 2. criticar o passado para construir o futuro, não para remoer o que não tem volta; 3. fazer isso com ânimo generoso, não vingativo.


Renato Janine Ribeiro

"amadurecimento" do PSOL



Gente me perguntando o que entendo por "amadurecimento" do PSOL - uma das razões pelas quais eu torcia por sua vitória no Rio. Uns, por ignorância ou má fé, insinuando que amadurecimento = alianças corruptas.
Vamos lá.
Amadurecer é não se enxergar como o centro do universo. É não pensar que vc é o único que presta, o único que sabe. Conheci muita gente imatura. Fui imaturo. O PT nasceu imaturo, mas em seu favor teve a enorme energia da juventude. Essa é a vantagem da imaturidade, aliás: a energia, a juventude. Mas traz consigo o risco da intolerância. Minha principal crítica ao PSOL foi que não apoiou outros partidos no segundo turno. Quando muito (e elogio-os!), psolistas apoiaram candidatos de outros partidos.
Vivemos numa sociedade complexa. A ideia de um partido único - ou o único a ser decente - não bate com a realidade. Partidos precisam dialogar, reconhecer a decência de pelo menos alguns outros, recusar a ideia de que são donos da verdade ou do bem. Isso é bem difícil, reconheço. Mas crescer é bem difícil.
Há muita gente boa no PSOL, como na Rede, como no PT, como no PCdoB. Todos estes partidos são criticáveis, também. Nenhum deles é perfeito. Mas a política é amadurecimento.
Uma sugestão, agora: vejam os candidatos vitoriosos, sobretudo os que vcs detestam. Pensem por que eles venceram. Vejam suas qualidades, ou pelo menos o que os leitores consideraram suas qualidades. Evitem a solução fácil de "eu estou certo, todos os outros errados". Uma historinha para inspirá-los:
A mãe vai com o pai ver o filho desfilar numa parada militar. Aí aparece o garoto. Há algo estranho, porém. Os dois pensam o que é, até que descobrem:

- Você viu que nosso filho é o único que está marchando no compasso correto?

Renato Janine Ribeiro