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terça-feira, 22 de outubro de 2019

Maiako




sim
velho Maiako
o planeta está imaturo
para o júbilo
e sabemos
que
nesta vida morrer
não é difícil

mas

a água corre o sol se renova
passos seguem ao horizonte
O gato ouve
meus lamentos e sopros
durmo no ocaso
dos rostos sonolentos
a arrancar alegria ao futuro
saúdo o sol
como um monge descalço

e

lá está ele o sol
jubiloso
de mãos dadas
com a nuvem
de calças

Hamilton Faria, Antologia da Resistência, Editora Patuá, 2018.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Criar Poesia

Casa dos Omaguás

Poesia e reencantamento

Criar Poesia

A poesia nos leva para outro real, reinventa o mundo, gera campos de encantamento e de novas possibilidades. A própria arte nos tira do sério, e eu posso ser o outro, posso ser eu ou o “fingidor”, que sempre está à espreita do poema. O poema é mais que uma revolução, o poema é uma metamorfose, não é a “velha opinião formada sobre tudo”, é “ essa metamorfose ambulante”, da lagarta que se transforma em borboleta. O poeta, no meu entendimento, tem um compromisso com a palavra, porque é a sua linguagem, mas a poesia é mais que palavra, ultrapassa a palavra, sai de um estado de palavra para um estado de encantamento maior ao qual pertencemos. Aqui há um nítido compromisso com a vida, há uma inquietação existencial – que leva muitos poetas viscerais ao seu limite, à compreensão de que nada vale à pena, tudo é tenebroso e inútil.



(Hamilton Faria, Revista da PUC/FAPESP, Cortez editora, 2014)

sábado, 4 de abril de 2015

O SONHO E A PALAVRA


Casa dos Omaguás
O SONHO E A PALAVRA

Durmo e sonho poesia. Acordo. Traduzo-a em prosa. Contra a vontade, induzido por um cotidiano prosaico; parece restar apenas um mero registro. Quando me lembro – o mais das vezes – preciso acordar à noite e correr para a caderneta e num upa anotar o poema ou frase, ou mesmo um sentimento noturno. Quase sempre perco tudo ou quase. Parece haver uma hora da noite em que os sentimentos, palavras, ações, saem de sua fragmentação caótica e fazem um sentido – outro, diverso da prosa, que brutaliza a linguagem com sua razão estúpida. A poesia acontece de um certo jeito, parece atabalhoado, surreal e pura, palavra de fonte, talvez de um inconsciente fundo, origem de todos os princípios. A palavra vem límpida, parece de uma raiz primal, e amplia-se, rizomática, lapidar, arborescente. E esblandece como um sol interno. Vira música.
Agora todas as partes do ser estão religadas pela palavra. E eu posso me transformar em Eu. Falta agora o outro para a poesia acontecer na sua mais alta voz, como um sonho do mistério.

Hamilton Faria, junho 2014

domingo, 31 de março de 2013

Profecia



Profecia

Os dias me ensinaram
- na agonia de quem
não pode ceder –

nesses mármores de espanto
eu era um guerreiro alegre
sem armas
e sem ódio
e que a paz
seria a minha definitiva
morada

Hamilton Faria

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Soneto D'Amor

Se teu amor está distante ou perto
O tempo e seu relógio te dirão
Se existe amor e se não mais existe
Se existe amor e um dia se amarão

Teu coração pulou fora do peito
Se em tua pele amor e amor se amaram
O que foi feito foi e se foi feito
Vida e vida ali que se encontraram

Não só a descoberta foi um mundo
Sem amor os ossos enrijecem
É dele que frabricas teu sustento

É necessário amar-se Chega a hora
da alegria voltar a amar a face
Não há caminho para o esquecimento


Hamilton Faria em Encântaros

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Bailarina

vira vida bailarina
vida vira devagar
assim se vai tão longe
muda tanto de lugar
mesmo pés mesmo bailado
mesmo vestido rodado
mas lugar não é o mesmo:
os pés estão trocados

me importa a bailarina
roda roda rodopiar
inventar outro passo
outro jeito de virar
mundo vida a teus pés
na cidade é outro mar
se a bailarina se vira
vira vida vida roda

roda roda bailarina
mundo é mais redondo
se teus pés são tua roda
no teu baile milenar
roda cidades e homens
bailam no teu olhar

há suspiros no mundo
porque tu danças de tudo
assim no fundo do copo
também no copo que cai

roda
...gira
......vira
........baila
............vida

vida vida bailarina
vida vira devagar
eu me vivo viro vida
no teu invento de andar

Hamilton Faría.

Criação

Deu-me a poesia o dom
de em palavras transmutar-me
Ser asa casa amor magia
Ao dizer Asa
subir-me cem alturas
Ao dizer Casa
esparramar-me, telúrico
Quando Amor ser-me eu
o outro
Magia, o mundo se ergueria
além do chão e das asas

Assim o mundo crio
O nome. A coisa nomeada.

E quando luz
sou muito mais do que qualquer saber
sou mais além
mais do que todos os meus olhos
podem ver

Deu-me Deus o dom de amar
e de escrever o vivido
E o dom maior me-deus:
o de viver o escrevído.

Hamilton Faria

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Arte

Quantas vezes partir
para ser inteiro?
Quantas vezes
ser inteiro
para partir?

Um homem parte
é partido
parte-se

Para encontrar sua outra parte?

Parti tantas vezes
outras me parti nalguma parte

Nesta parte que busca a parte
da parte da outra parte da parte

que parte
se parte
reparte

Asas nascem inteiras

Arte


Hamilton Faria
em Encântaros

Véu

A Helena Kolody

persigo a utopia desejável mundo transparente
mas se pego as asas do dia e vôo sou real
mais real que o véu que me separa do fogo e da lágrima

Céus de todas as Eras o limite é o sonho


Hamilton Faria

A Aranha

A aranha dança
suspensa
por fios de cristal
O sol por trás
ilumina o olhar
de quem vê
a aranha dançar
no invisível raio
de sol
que suspende a aranha
e o olhar

Hamilton Faria

Eterno Círculo

Caminho inconcluso
Quase ocaso
Quando o Sol
Eu me concluo
Acaso?

Hamilton Faria
em Encântaros

Fontes

Desces agora com toda a tua beleza às fontes de água pura
Que o coraçao é uma estrela de máxima grandeza
Ainda por ser descoberta
Que nosso andar no mundo é maravilhosamente estrela
Espantosamente
Luzes que atravessam vidros
Acordo orgulhoso de pertencer ao Universo
Ser pequeno e pó
Ao mesmo tempo rei de minhas descobertas

Embaixatriz das Galáxias
Teu trabalho é além das nuvens


Hamilton Faria