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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Fecundação

Fecundação
Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente...
de dentro deles teu amor me espia.

Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura

Tua mão contém a minha
de momento a momento:
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.

Nada me dizes,
porém entra-me a carne a pesuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.

Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma.

Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.

[Gilka Machado]


(in Sublimação, 1928)

domingo, 19 de outubro de 2014

ENCANTAMENTO

Canta
que tua voz
ardente e moça
faz com que eu sinta a meiguice
das palavras que a vida não me disse.

Para te ouvir melhor
abro as janelas
e fico a sós
com tua voz
sonhando
que a noite está cantando
pelos lábios de fogo das estrelas.

Canta,
boca febril que não conheço,
que nunca me falaste e que me dizes tudo!...

Ave estranha
de garras de veludo,
entoa para mim
uma canção sem fim!

Canta,
que ao teu canto vejo
em tudo
quietude atroz
de insatisfeito desejo
Canta,
— em cada ouvido há um beijo
para tua linda voz.
(...)



Gilka Machado – 1938

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Saudade

De quem é esta saudade

que meus silêncios invade,

que de tão longe me vem?











De quem é esta saudade,

de quem?









Aquelas mãos só carícias,

Aqueles olhos de apelo,

aqueles lábios-desejo...









E estes dedos engelhados,

e este olhar de vã procura,

e esta boca sem um beijo...









De quem é esta saudade

que sinto quando me vejo?










Gilka Machado
(in Velha poesia, 1965)