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quarta-feira, 9 de outubro de 2019



o relógio na parede
cai o reboco do tempo
casca das horas
no piso quebrado
ao tranco lento das solas
dos sapatos e dos segundos.


Evandro Souza Gomes 

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Um Uivo pra Ginsberg



desde os tempos das orelhas quebradas
desde os tempos das rolhas mofadas
a poesia vaza louca e abrupta
sobre a grama dos jardins artificiais
o tempo come os relógios
o tempo devora os esqueletos
o tempo tritura as vitrines
a melancia dos prazeres rola ladeira abaixo
do fundo das latas de lixo resgata-se
os sonhos penhorados por cents de nada
e os comboios beats se espatifam
nos vales imensuráveis do delírio e da arte
até a última gota de sangue
o devaneio disseca o corpo
até a última gota de poesia
a vida agoniza em patentes de flores
em sombras trôpegas em rolos de seda vadia
em salsichas podres que despencam dos prédios
sobre os guarda-chuvas dos transeuntes
mas a poesia sobrevive como musgo na pedra
tobogãs cospem vermes
nos liquidificadores da imaginação
fervilham infernos putas pederastas
cascatas de gozo e rituais de pura anunciação
o imundo macula o mundo
e os anjos dormem
sob as folhas das samambaias oxigenadas
na fruteira inox dos acadêmicos
apodrecem os frutos colhidos
no bosque silvestre dos poetas malditos
a estrada é alma elevada aos céus
- os pássaros passam em chamas -
o asfalto derrete-se sob rodas de nuvens
a transfiguração veloz de horizontes
milhões de garrafas baganas canetas
ácidos licores lisérgicas-punhetas
e a máquina de escrever relinchando
nos campos de concentração da criação
o pasto devorado ruminado regurgitado
sobre as toalhas bordadas dos banquetes
e a mesa posta à beira do abismo
coquetéis improváveis e sementes de paraísos
o jorro o improviso os “cem-sentidos”
a vida incontida deflorando manhãs
panelas amassadas pratos quebrados
no chão da América sem cozinha
e a mescalina acendendo luas
no varal do meio-dia
Allen Ginsberg
merda ou sêmen
de pura poesia

Evandro Souza Gomes 

23 de maio de 2011

terça-feira, 3 de setembro de 2019

QUINTANA REVISITADO


   
o belo idiota que aí está
contando lorota
ele marmota, eu gaivota.


 Evandro Souza Gomes
050711

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019



Quero moinhos rodando na palma da mão
Quero flores ornando os postes da cidade
Quero sabiás voltando em alarde ao ninho.
Quero caminhos indo a cem palmos do chão
À sombra dos álamos, quero calar o coração
Pra que na tarde a paz nasça - amor em grão.



Evandro Souza Gomes

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Há que se ver uma praia
onde as águas têm asas
e os barcos singram
em rastros de pura areia.

Alambique de pura magia
Ainda beberei Moçambique
Maré de nuvens e poesia

Evandro Souza Gomes

domingo, 30 de dezembro de 2018



poeta envolto em manta
coração boceja de fome
poesia não veio pra janta



Evandro Souza Gomes 

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

PENSAVENTOS


 - A porta da mentira pode ser de ferro. Mas a verdade traz maçaricos nos dedos.




 Evandro Souza Gomes  

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

DOIS POEMAS AOS SOMALIS

I-
sob migalhas de grão
mesa na Somália
a sete palmos do chão

II-
corvos regem a canção
a fome cava fundo
crianças nas covas
e o caviar em ovas
aos canalhas de plantão




 Evandro Souza Gomes

quinta-feira, 5 de outubro de 2017


a miopia da solidão
amor fora de foco

coração sem óculo.

Evandro Souza Gomes  

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Nº 1108


vida ganha em rifa
poesia traída

com odes às cifras.

Evandro Souza Gomes  

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Bilhete


No bilhete de costume
Eu dei pista de afeto.
Sai por aí, vaga-lume

Só volto caso haja teto.


Evandro Souza Gomes

sábado, 26 de agosto de 2017

Pensaventos


 Eu durmo mais tarde pra que mais cedo lua acorde



 Evandro Souza Gomes  

sábado, 12 de setembro de 2015

Enseadas

Evandro Souza Gomes


Em vagas de espuma
inflo velas. E vago
desejoso de âncoras
aportando nas enseadas
da tua pele litorânea

arenosa bruma nua.

Evandro Souza Gomes
‎Vidráguas

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

INSANITATE



Dentro da noite insana
cubro de nuvens pesadas
o céu de sonhos estelares
e nas retinas encharcadas
de ausências milenares
pingo o silêncio dos cometas
que me ardem no peito e
me cortam em finas postas
mechas de luzes orvalhadas
em flores de pétalas inexatas
que se abrem sem jeito
à sombra das cores depostas.

Evandro Souza Gomes


061014

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Quando acaba o espetáculo
Toda tristeza se descortina
E uma lágrima suja de tinta
Escorre pela face e despinta
A dor que mora escondida
Sob a maquiagem do artista.

Do livro: Palcos e Picadeiros - Evandro Souza Gomes