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domingo, 9 de abril de 2017



Morreu Cristovam Tadeu, estou pasma! Não deveria, minha geração começa a se aproximar desse momento e a finitude sempre nos pega a meio caminho, apenas começando e isso é triste. Nunca viveremos o suficiente, nunca completaremos tudo que pretendíamos e fica o por fazer, o meio caminho andado para a próxima geração. João Pessoa era pequena na época que morei lá. Cristovam e eu éramos da mesma geração, da mesma tribo por assim dizer, nos conhecíamos. Porem, conhecidos, simpáticos, gentis, nunca chegamos a ser mais que formalmente amigos. Faltou a intimidade, a oportunidade de mais conversa, uma troca maior que poucas palavras em comum além das amabilidades sociais. Tão certos estávamos da eternidade e das nossas afinidades, que faltou a busca, a intenção do encontro, a interação real. Agora Cristovam Tadeu morre com essa amizade que por ser sempre possível, ficou definitivamente adiada. Isso é triste. Não nos faltaram motivos para firmá-la, não aproveitamos é as oportunidades. Algo fica incompleto, para o sempre incompleto, e fará falta: estou triste e estou pasma.

Inês Monguilhott


Hoje, como tinha dito, vou no Capão, um pouco apreensiva, pisando macio na terra dos outros, vou beber um pouco, dançar um pouco, mas não iria tão longe a um lugar que provavelmente me estranhará por tão pouco.
Pouco mais de vinte anos atrás fiz uma dívida que hoje é do Capão. Trabalhava em uma clínica de dependentes e tinha um rapaz lá, do Capão, muito tímido, ficamos amigos. Se é que amizade é troca de algumas formalidades do trato diário. Um dia recebi dele um quilo de massa de mandioca que ele soube que gostava. E outro dia, tempos depois, soube por outro paciente que ele tinha surtado e nunca mais o vi. Passei um tempo certa que voltaria, essas interrupções são comuns nesse tipo de acompanhamento, mas tive muita vontade de procurá-lo, procurar a família. Não fui porque não era da minha alçada interferir num caso clínico, não seria bem vinda talvez, talvez o envergonhasse com minha presença. E na época, casada, como diria ao marido e aos filhos, fiquem aí que vou procurar um cara que mal conheço no Capão. Também, quando percebi que não voltaria o tempo tinha passado.

Hoje nem me lembro o nome desse cara, não o reconheceria se o visse, talvez esteja morto, sei lá, sei que não se lembraria de mim, mas quero com vinte e tantos anos de atraso ir no Capão para porra nenhuma a essa altura, mas, a mais insignificante das partes, desconexa, inútil e insignificante eu farei. Eu vou lá.

Inês Monguilhott

quinta-feira, 30 de março de 2017

O amor
Entram no quarto, a mulher à frente, ele já no papel escolhido, logo atras. Param um minuto para perceberem o ambiente, o quarto do motel parece uma nave espacial concebida em algum delirium tremens dos anos oitenta. O homem a toca no braço e indica a porta do banheiro semi aberta: mamãe... Olha-o irritada, participar dos folguedos dele, tudo bem, mas ser chamada de mamãe era intimidade demais. O homem conserta-se: mãe.
Ok, ok...
No banheiro leva um tempo para tirar o vestido justo azul escuro, a cintura marcada por um cinto de verniz vermelho, numa pegada bem anos cinquenta; valorizava seu excessos. Sabia que ele gostaria que se vestisse como tivesse acabado de chegar dos anos setenta. Naquela época só tinha magras de pernas longas e culotes e ela não tinha nada disso e se o homem a irritava um pouco, contraria-lo era sua forma de equilibrar os pratos.
Quase um prólogo, ajusta sem necessidade a a meia fina que dá um toque gostoso à pele e confere os sapatos de verniz vermelho da cor do cinto, da cor das unhas. O salto agulha é explícito, comprou de propósito, é bom que ele saiba: as coisa são o que são. Tira da bolsa uma camisola de um tecido gelado azul turquesa com rendas no decote, quase uma piscina individual. Põe, e conserva as meias e os sapatos; no terreiro do desejo a normalidade é o primeiro galo sacrificado. Sorri, olhando-se no fumê do box.
Abre a porta devagar mas não completamente, apenas desliza pela abertura, uma mrs Robinson latina.
O homem a esperava no mesmo lugar visivelmente excitado. Estranha o turquesa. Não tinha branca? Não, muito feias, a mulher corta, seca. Ele prefere não dizer nada, não vai perder o tesão por tão pouco. Começa a apagar as luzes, deixa um mínimo, quase nada, em minutos a vista se acostumará a obscuridade.
Mãe, senta aqui, a senhora está muito cansada... precisa descansar... e todo solicito indica a borda mais próxima da cama. A mulher obedece. Cada um atua em sua vibração, ela era só olhos. O homem se ajoelha em frente. É maduro demais para parecer um adolescente e breve será velho. Deixe eu tirar seus sapatos, sugere: é uma súplica e uma ordem. A mulher para reforçar a aquiescência inclina levemente o corpo para trás, levemente... não move os pés. Ele pega um pé e retira com destreza o sapato. Quantas vezes já fez isso? Em alguns detalhes ela se esmerou, mas fez só para si: a meia de confecção europeia, passadista, escondia as unhas numa biqueira mais encorpada que não se usa mais. Se ele gostava dessa brincadeira ela gostava de caprichar no figurino, e de assistir... endireita o corpo atenta à cena.
O homem ajoelhado senta-se sobre os calcanhares e começa a massagear o pé apoiando-o na coxa, uma coxa dura; enquanto um pé é massageado, o outro permanece calçado. A senhora sempre gostou, lembra? Lembra como eu fazia, a senhora deixava... gostava muito... a mulher maliciosamente participa, avança o pé, e o sexo duro oferece resistência debaixo da calça. Calça jeans, foi de propósito, ele não era indefeso, sabia também como aborrece-la. Ele continua a massagem inocente e ela a prospecção. Eu fazia massagem toda a tarde, ninguém fazia melhor, sempre me disse... ele está feliz.
Logo um pé só não é suficiente e a massagem parece um roçar convulsivo dos pés na calça jeans. Ela entra no perverso da coisa e diz melíflua, filhote, não quer tirar também os sapatos? Adora quebrar o previsto, sabe que a encenação precisa dela passiva ou inocente. O homem não discute, joga os mocassins num canto, rápido, para manter-se no clima. Ela continua fugindo do enredo... sua mãe está tão cansada, finge... e ele vai afundando um pouco mais na história: é o papai, ele não presta, ele não trata a senhora direito, mam... mãe. Não trata como eu trato, como deve ser tratada. Não tem o menor carinho... a senhora é muito boa. A mulher quase ri da ambiguidade da frase e prefere ficar calada, não quer interromper a cena. É um bêbado, papai é um bêbado, fica só se masturbando na sala... mostrando o pau, só para mostrar que o dele é grande. Com os pés a mulher sabe que aquela fruta não caiu longe da árvore, se algo fez diferença, ficou na adolescência. E para marcar a opinião não dita, explicita: aperta o pé com um pouco mais de força. Ele, que não gosta de nada evidente, retrai-se. Agora, excitada, ela parte para o ataque e se esforça para parecer maternal, o mais possível, inspira afetada e sugere o mais doce que consegue, querido... não quer fazer um favor para sua mãe? Tire minhas meias, querido, estou tão cansada... e baixa os olhos lânguida feito uma atriz. Ele, que até o momento não olhara para ela, acusa o golpe, uma olhadela rápida e uns segundos de indecisão, depois, as mãos acompanham a meia e o contorno das pernas, vindas dos tornozelos passam por trás dos joelhos até a lateral externa das coxas. Há uma pausa, ou ele esperava que as meias acabassem nas coxas ou decidia o que fazer: era uma meia calça. Ela apela com tudo, tira para a mamãe, tira... e ergue um pouco os quadris. Os dedos de um marmanjo de quase quarenta anos puxa a meia calça como fosse sua primeira vez. Ela lamentou sua fidelidade ao figurino, ter uma calcinha por baixo. Ele, para serenar, ou sei lá o que, volta à massagem, aos pés, as unhas vermelhas.Ela ergue o pé e cobre com ele o rosto do homem: barba e óculos, está como as vezes costuma ficar, numa zanga fria, distante. Sem fazer cálculo o homem beija o cavo do pé, a mulher ri, faz cócegas... beija então o esmalte das unhas. Ela força, empurra os dedos para dentro dos lábios. Não, isso excederia a devoção filial. Irritada ela apoia o calcanhar direito no ombro do homem ajoelhado, o derruba com um pequeno impulso, sabe como fazer. Olha, só, você também está cansado, ela surpreende-se com o próprio sorriso ... a maior desfaçatez. A senhora fez de propósito, maldade... queixa-se o homem de quatro. Fez. Ou não fez, estava apenas frustrada com o andar da carruagem, e completa, ríspida: sou sua mãe, cadê o respeito! O homem retorna aos calcanhares e não diz nada. Ela inclina-se para ele, segura-o pelos cabelos e enterra sua barba entre os seios, sua mãe te ama, filhote! Ainda bem que os óculos dele eram resistentes. Há uma débil resistência, mas ela o segura até que aceite essa simulação de colo materno e vencido, passe os braços pela cintura da mulher que o embala, e a excitação se confunde e se dissolve em algo perversamente maternal. Amava esse idiota, era idiota ao ponto de amar esse idiota, afinal, tortamente era a mãe dele. Ele quebra o silêncio com uma queixa infantil: não quero meus primos em casa... (??!!) ficam só olhando a senhora. Puta que pariu!! Tenta ser didática, você também não gosta? Ah, mas eu sou filho, não tem maldade... a mulher solta uma das mão que segura o homem e põe no seio por dentro da piscina/camisola azul/gelada. Olhe... é bonito... quem não gostaria de ver? E vai apalpando o próprio seio, a camisola quase toca a testa do homem que, se não quer olhar, percebe os movimentos. Ela pousa um tempo no real e diz, compungida e excitada: querido... tem que enfrentar isso... sabe disso, não sabe? Eu estou aqui, se quiser... tem que derrubar o muro ou aceitar ele na paisagem...
Ele levanta-se brusco e afasta-se... talvez nada venha a lhe dar mais prazer que o nunca realizado .... vai para o interruptor da última lâmpada do quarto e diz ainda de costas, mãe, não vamos conversar... estamos muito cansados, vamos tirar um cochilo, papai está dormindo no sofá e a senhora nunca gostou de dormir só... e desliga a luz.
A mulher deita-se no escuro total, o homem deita-se ao lado completamente vestido sem sapatos. Um movimento qualquer e percebe um cobertor cobrindo-a. Dá as costas, sabe o que virá depois, uma mão ténue e solícita, o indisfarçável barulho do zíper e o toque discreto de algo duro que não ultrapassará a camisola. Fecha os olhos, está excitada e frustrada.

Inês Monguillot