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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Poema novo, lembrando Guimarães, o Rosa.


Bom dia, gente
O milagre
Dança, ave,
palavra nova,
a inevitável dança,
como diz o Rosa,
das espadas-lanças
nas grandes
e pequenas horas.
Um léxico apenas
e não se pode
escrever poemas
de rios e crocodilos
ou destes tempos malditos.
Então é esperar o milagre
da ave nova,
guardar o riso
até que se acabe
a tristeza
e a inutilidade
do precisado.
Tudo fica claro
se te achegas
ave-palavra
com teu voo
desinquieto.
Quando penso
em guimaranês,
o sabiá entoa uma prosa
de meninos
com a raiz das árvores
e tudo fica assim,
bem menos grave.
Pode-se até tocar
sem medo
o veludo das lagartas
tão verdes
quanto os olhos de Diadorim.


Rosa Ramos.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

zero a zero


UMA LINHA FECHA-SE EM TORNO DO VAZIO,
perdi-me de ti, deixei que me deixasses,
NA MATEMÁTICA CHAMAM-NA CÍRCULO,
parti, voltei, tornei a partir, amei outros, fiz-me outra
A CIRCULARIDADE PARECE-NOS INFINITA
e outra e outra, sempre mudando a cor dos cabelos e as expectativas
SE A LINHA GIRA CONSTANTE AO REDOR DE SI.
e voltando, cão correndo atrás do rabo, como dizem por aí.
AO VAZIO CONFINADO À CIRCUNFERÊNCIA
presa de mim, presa ao teu cheiro de notas cítricas, e ao teu rosto
PODEMOS IMAGINAR O NADA EM IMANÊNCIA,
nesta fotografia que pendurei atrás da porta do banheiro
UM OVO CEGO, O ZERO-MUNDO, A GRANDE DISTÂNCIA
como um ícone ao qual presto culto lambendo os batentes
ENTRE O RISCO E A LETRA, A LINHA E O AR
entrego os pontos (não é uma linha feita de pontos?)
e peço: deixe-me respirar, quero ar, quero ar.


Rosa Ramos.

sábado, 14 de novembro de 2015

Previsões


Decidiram por mim,
se inferno há,
quando estiver morta
irei para lá.
Pelo pecadilho
_ tão pequeno _
de ter sensível o ouvido
e preferir silêncio
e cânticos
a vazios vozerios.
Coube-me,
por decreto familiar,
ranger de dentes
e covas de fogo ardente,
a mim, a ovelha sem pertença
e sem juízo
que, disfarçadamente sábia,
enviará os diabretes
ao ortodontista (pecador
de pecados outros
a quem coube a sentença
de morar entre teias e traças
da biblioteca de Atenas)
para um alinhamento dentário
uma quebradura de maxilar
uns aparelhos de ferro
ou o que seja que pare
o tal rilhar infinito.
Quanto às valetas de vergonha
e calor, essa que vos fala,
ainda viva e sem castigo,
aproveitará para um bronzeado
num fio dental pouco decente,
enquanto examina as torturas
impostas por Dante,
que afinal inferno,
se o há,
serve é para que alguns,
os mais hipócritas,
o cantem.
rosa ramos

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

consciência


para os devidos fins, eu, brasileira, sou mistura
e temperança. minhas orações futuras
serão as alianças
entre os genes que colorem a carnadura
com abastança.
e saibam todos, não há cores nas escrituras
sejam sacras ou profanas.

rosa ramos

segunda-feira, 6 de outubro de 2014


do que é preciso
é seguir a rua e olhar em torno
fabricar contornos
para o confuso mundo
deixar de lado a lua
a tua presença e o uso
abusivo
do fundo de pensões.
assim como quem flana
à moda francesa
deitar os olhos apenas
sobre o cacho de bananas
maduras sobre a mesa
da quitanda
caminhar e olhar sem pretensões
outras que não pensar poemas.



 Rosa Ramos

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

nasci com a pele de seda
e um coração de pedra
a beira-mar.
éramos eu e mim
um par.
meus olhos
da cor da folha do azevinho
só existiam para enxergar
mas meu coração te viu
e erodiu
em fragmentos inexplicáveis.
eras tudo e ave.

rosa ramos

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

cegueira essencial

cegueira essencial
daquilo que é invisível aos olhos,
o cheiro de maresia do teu corpo,
o vento que alvoroça teus cabelos
como a trêmula auréola do sol nas cúpulas,
a trama celular que fez teu torso e mãos
para meu indizível deleite e culpa,
ainda a poeira estelar que purpurina o céu
em nossas noites mais quentes,
mais desejo o ar que atravessa as pontes
e a linha do horizonte que habita
o fundo desse teu olhar em solidão cristalina.

rosa ramos

sábado, 23 de agosto de 2014

a quem interessar possa a poesia,
limpa as gavetas do que nela se escondia:
a rima fácil, o verso velho, e ri
a larga de quem detém verdades e mentiras.


rosa ramos

sexta-feira, 30 de maio de 2014

pontos cardeais
sagração
palavra-bússola
que aponta
acima o deus
que conjura.
estalactite
ponta abaixo
inferno astral
TV, jornal
sem carnadura.
cimitarra, espada curva
leste-oeste
far-west, stalingrado
duplicidade
espelho sem aço
mamãe aos gritos
balaço.
calotas, comportas
misantropos
tropos
a fervedura dos polos
água que falta nas torneiras
toda água que já bebera
líquida ternura.


rosa ramos

segunda-feira, 24 de março de 2014

Quando se chega
ao branco dos cabelos
e nos doem e estalam os ossos
e o cristalino dos olhos
já perdeu os seus cristais
e as posições do Kama Sutra
são mais infiéis
que a posição do Buda
coluna ereta e mente liberta
de todos os ais
é que se descobre
ao lavar os pés
ainda com certa graça
e muito júbilo
que se pode pousar
sem academia
o corpo no ladrilhos
em posição de garça.


Rosa ramos.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Psicanálise


este mosaico de vespas
que se abre e fecha ao contrário

daquilo que em ti são vésperas
gosmas, córdobas, retalhos

mal contido em tuas vísceras
tão mais teu quanto vário

é este vitral antigo
com que investes teus talhos

de cinzas, sombras, vestígios
de morte, abismos, corsários

e ainda destes vislumbres
de amor como ato falho.

Rosa Ramos.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

FAZERES
o poeta chega sem alarde
ao branco da página;
invisível quase,
pensa a melodia
que há em cada frase
e conjuga verbo e imagem,
tudo em pensamento,
que não se atreve
a acelerar o tempo
do poema imberbe.
cheira a folha,
rege o vento que a sopra
espanta a mariposa-
palavra que vem surgindo
como a lua clara.
talvez um tango,
talvez espanto, ele pensa,
as rimas passarinhando seu cérebro,
uns grunhidos de fonemas
avançam sobre ele
até que exausto rende-se
ao eterno exílio
da palavra extrema.

 Rosa Ramos
Poeta carioca. Não tem livro publicado, mas já participou de algumas antologias: Sete Vozes,2004 e Poema de Mil Faces,2012. Recentemente, a revista Mallarmargens publicou 12 poemas de sua autoria. Já publicou também na revista Poesia Sempre. Rosa Ramos está na série AS MULHERES POETAS... Se quiser ler mais, clique no link:


http://www.rubensjardim.com/blog.php?idb=39530