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terça-feira, 8 de outubro de 2019

Luzincu





Descobri, encoberta
em mim, a esmeralda
que todo garimpeiro
sonha um dia catar

A bem da verdade
não desviei à direita
nem à esquerda

Lavrei versos
com mãos à terra
de onde mirei a pedra
no meio do caminho
brilhar


Fabio Freire     

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Madrigal





Amor madrugou querendo passear em meu jardim; despertou-me
sonhos sua voz de sonho.

Formando de capim um laurel para si, pegou-me, cantante, em
seu colo, pouso de meus devaneios vintaneiros.


Fabio Freire       2 de agosto de 2011

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Carta ao jovem menestrel



Para um dedo de prosa

Carta ao jovem menestrel

Quero conduzir-te a sítios, guiando-te de um lado para o outro; sou eu, teu garoto. Venha comigo repousar neste quintal; já posso ver-te em mim, tenho a chave do portão do jardim, cá dentro em nós.

Andemos, mãos dadas; diz-me tudo quanto preciso olvidar. Em tua presença falar é despir meu imo, é tornar ao instante indelével. Não determina o tempo as contas dos nossos contos nos recantos deste eido prazenteiro, onde Jeliel está debruçado sobre a sua criação.

Cantarei só pra ti todas as estações; o eterno retorno das flores; a vedada senda deste prado. Que coisa madura e divertida, rir! Quero contigo tornar ao meu desígnio, ser teu instrumento. Vem seguir-me o passo e trasbordar de luzes na luz das manhãs. Tens algum engano? Alguém já te deu carinho? Gosto do teu beijo; minha face brilha num sorriso.

Toda vontade nos renova o viço, nesta seara de poesia; tudo, aqui, há. O cessar da rota solar no ocidente é belo e, à noite, guardo uma surpresa; neste canteiro de erva verde nos permitimos; a árvore de todos os frutos nos extingue a fome; há um salto d’água de fonte virginal, gotículas do véu de sua queda flutuam úmidas e refrescantes no espaço; quão mais sincera for tua anima ao gozar, aqui, nestes círculos de homogeneidades mais estarás ao centro, espírito. Adorar a graça é refazermo-nos, melhor.

Venha, que sou guia dos mistérios cultivados neste campo; posso regar seu rego e desfazer as nuvens nos céus; quiçá, o rebroto, neste pomar fecundo floresça-me, frutificando em ti. Queres um arco colorido, no firmamento dos astros, de extraordinários matizes? Derramar a florescência da palma das mãos, entre os dedos, neste chão? Permitas-te desejar-te; é esse o encanto.

Fabio Freire      

domingo, 30 de dezembro de 2018

Meu conforto



Duas luas gêmeas, os teus seios, prata branca. Jóia pálida de alva rara que finda as minhas noites abismais, quando não há sonhos no meu leito estreito. Desejo. E o pensamento comedido no caudal de prazeres fecundos é tanto, que os teus úberes abundantes rubejam, pois, de vergonha e deleite, coram diante de êxtase tão febril e casto.
Feitos. Tatos de pureza tantos e tão sóbrios gestos à feição singela, que o mais alto aos teus pés reclina, reverencia a tua feitura, filha de Deus.
Só de possuir a tua imagem, só de memorá-la, posso cobrar o fruto de ouro da árvore de um místico jardim. Sou herói divinizado, deus decaído regressando à morada da imortalidade, dantesca aventura, viagem d’alma, na blindagem do corpo.
Essa febre de pele desnuda que só o teu colo refrescaria daria sentido à existência, em tudo o teu bálsamo derramarias, para a cura de todo esse mal. Mas como é larga e confortável a solidão neste colchão.

Fabio Freire

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Tábula




Falo,
minha arte
comunica

Não quero preencher teus olhos
com místicas magas
mitológicas sereias
belas fadas

Nem quero
formular ritos
de um mosto mortal

Dito o escrito
em lama de vulcão
magma sonoro
terra candente
tal o turbilhão de águas primordiais
que anteviu a geração de tudo pela palavra

Venho romper teus tímpanos
vazar teu solo
encontrar o irrequieto centro
de teu desejo
convocar-te à paz nenhuma

Esta lábia
pronuncitada
baboseiras não baba

Pousa bálsamo versado
de um doce nardo

É verbo retado
transgressor de meus acomodados:
– ah! isso não tem jeito,
é sempre assim mesmo!

Eis meu dote
que dôo com graça

Sou nomeado favo monteiro
rico protetor e guerreiro
noviluminário do oeste

E antes que torne a mim:

– Aleijado, até aqui, não rasteje!


 Fabio Freire             


sábado, 9 de setembro de 2017

poietes


seja poeta,
que o mundo será
como idealizas

– o mundo já tem destino!

– o que lhe resta, poeta?

ser a voz de tantas,
tecer-lhes tapetes voadores,
dizer-lhes a causa da queda,
doar-lhes o fogo remediador!

fabio freire