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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Contador Borges | A morte dos olhos

Nervuras | XIII

No deserto da pele, nos olhos
(quase pássaros),
sondas aéreas varrem
de extremo a extremo:
sopro de ecos sobre o silêncio;
e de repente a concha,
o som perplexo da boca de Homero:
o sem-olho, só dentes, esmerilha o destino
sob sol e chuva
para arrancar Ulisses
do sonho carcereiro da deusa.
Assim faz a carne com os sentidos,
faz a vida com a pele mortífera
até a língua exprimir seus prodígios,
até a fome inventar um antídoto,
sabores íntimos na extremidade do tato,
as regiões da língua,
os cimos do palato, este palácio
onde os sentidos fulguram,
onde as palavras destoam,
ouro soante, pérolas afoitas: primos ricos
da redundância.

Sérgio Gonçalves




terça-feira, 7 de maio de 2013

ALGUMAS ANOTAÇÕES EM TORNO DA MONTANHA MÁGICA


Sergio Gonçalves


"Ontem à noite, entre as nove e meia e dez horas, saí ao jardim, para fazer um pouco de exercício. Meus olhos vagaram ao longo da fachada, e notei que a lampadazinha elétrica na sacada da senhora luzia através da solidão. Conclui que a senhora estava observando o repouso..." (A Montanha Mágica", Thomas Mann).

Li "A Montanha Mágica" ainda muito jovem. Da montanha passei a "José e seus irmãos", a "Morte em Veneza", "Doutor Faustus", tudo o que ele escreveu.

Mas, para entrar na montanha entendê-la, precisei estar nas instalações do CPO - Centro Paulista de Oncologia, um espaço especialmente bonito, jardim maravilhoso, pássaros, objetos de arte muito bem escolhidos e muito bem postos. Conversávamos bastante, nós, os escolhidos para possivelmente morrer, uma conversa que só nós mesmos podíamos entender. E ouvir.

sábado, 29 de dezembro de 2012


As grandes livrarias têm gôndolas, não tem estantes. Cobram como se fossem e assim se tornaram HIPER-MERCADOS, vendendo qualquer produto que possa ter demanda, quase sempre criada artificialmente pelo marketing. O desrespeito ao livro e ao leitor são totais. A ganância também leva à estupidificação dos atendentes, que mal sabem consultar um computador. Tendem a ser analfabetos "disfuncionais". Os estoques inexistem: "não temos aqui, mas podemos solkicitar e entregar em três dias. Na Livraria Cultura, ue não é mais respeitável, indaguei do livro de uma escritora amiga: a figura que e atendeu não podia acrreditar que "Talhaferri" escreve-se "Tagliaferri"... Livraria agora tem diretor, gerente, atendente, mas não tem "livreiro", o que conhece livros e os seus clientes - favor dirigir-se ao caixa.

Sérgio Gonçalves